segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Por que a violência no filme do Coringa choca tanto?




ATENÇÃO! ESTE TEXTO PODE CONTER SPOILERS (AINDA QUE LEVES) DE CORINGA. CASO AINDA NÃO TENHA VISTO O FILME E NÃO QUEIRA TER NENHUMA SURPRESA ESTRAGADA, POR FAVOR, VOLTE MAIS TARDE. 

Este fim de semana eu pude finalmente assistir ao filme do Coringa, estrelado pelo Joaquin Phoenix.


Mesmo antes de assistir ao filme eu já imaginava que havia um certo grau de "histeria" em torno da história, principalmente nas repercussões sobre o filme ser  perigoso, sobre o seu grau de violência e a preocupação com a glamorização da mesma. Sabemos que em lugares com fácil acesso as armas, como os EUA, que possuem epidemias de tiroteios e atentados, a preocupação tem fundamento e todas as medidas de segurança possíveis devem ser tomadas. Mas final, o filme é mesmo tão violento quanto as pessoas estão dizendo?





Sim, o filme tem violência, caso o contrário não teria classificação R-Rated (ou para maiores de 16 anos aqui no Brasil). Mas para a surpresa (e talvez decepção) de muitos, o filme não é tão violento quanto se pode pensar inicialmente, nem em quantidade nem tão pouco no gore. A maior parte das cenas explícitas de violência é crua, rápida e que pega o espectador de assalto. Nesse sentido, ele não é mais violento que a franquia John Wick, por exemplo, onde o protagonista mata mais gente numa única cena do que Arthur Fleck no filme inteiro. Então, por que não vemos (tantas) pessoas problematizarem a franquia estrelada pelo Keanu Reeves em relação à apologia à violência do que em relação ao novo lançamento da Warner?

É uma questão um tanto complexa e que certamente não possui uma única resposta. Mas para mim grande parte das pessoas se preocuparem tanto com o Coringa e relevarem outros filmes de ação com violência exacerbada se deve à criação de mundo. Há um palhaço que ministra oficinas aqui em Curitiba que teoriza que na comédia o público ri por dois motivos: Identificação ou superioridade. Acredito que o primeiro elemento esteja também intimamente ligado à nossa capacidade de obter catarse através da violência: Voltando ao exemplo, John Wick, por mais realista que seja suas cenas de ação e coreografias de luta, se passa num mundo fantasioso, com regras e mitologias próprias estabelecidas. Nele, há uma sociedade quase que à parte, um submundo com suas próprias convenções, formada por assassinos profissionais e de elite, e boa parte da trama está enclausurada dentro deste mundo. John Wick é um assassino de aluguel que no primeiro filme está atrás de criminosos buscando vingança por uma violência que ele sofreu. Nas sequências, ele praticamente tem que lutar para sobreviver devido às consequências de seus atos, mas seus algozes ainda são seus pares: outros matadores de aluguel altamente treinados ou chefões de organizações criminosas que colocaram sua cabeça à prêmio. Existe uma ordem clara dentro do aparente caos que permeia o mundo de John Wick e nós, como espectadores, nos sentimos seguros pois sabemos que isso nunca aconteceria com a gente.


John Wick mata muito mais pessoas mas ainda é visto como um "herói de ação"



Já o filme do Coringa, embora também se passe num mundo ficcional, possui muitos mais paralelos com o nosso próprio mundo. Aqui praticamente não há elementos fantasiosos para nos lembrar de que estamos vendo uma ficção e que os eventos do longa dificilmente aconteceriam no mundo real, pelo contrário! O hiper realismo apresentado é um constante lembrete de que a qualquer momento nós podemos trombar com um Coringa qualquer: Pode ser nosso colega de trabalho, o estranho no transporte público ou aquele parente que no fundo a gente sempre achou meio esquisito. E se o protagonista é, nesse sentido, um ser ordinário que se veste em qualquer pele, suas vítimas não são diferentes: pode ser o seu colega de trabalho, o estranho no transporte público ou aquele parente que ele sempre achou meio esquisito. Há uma aleatoriedade alarmante em sua vitimologia, pode ser qualquer um que simplesmente cruze o seu caminho e lhe lance um olhar meio torto. Claro que se você assistir ao filme verá que as vítimas do Coringa não são pessoas exatamente aleatórias, mas sim algozes que de uma maneira ou de outra lhe impuseram algum sofrimento. Isso, obviamente, não justifica suas ações, mas alguém com um senso de moral meio torto pode olhar e se espelhar em seu comportamento vil, tal qual os cidadãos de Gotham levados ao seu limite devido às calamidades que vinham sofrendo. E a verdade é que a possibilidade de sairmos para ir trabalhar ou nos divertir em algum evento e acabar cruzando com um maluco desses é tão assustadoramente real que é natural e compreensível que algumas pessoas acabem vendo o filme e fiquem um tanto paranoicas, principalmente em locais em que há histórico desse tipo de comportamento.


O cara normal que pode ser qualquer um



Muitas vezes estamos acostumados a sermos desconfiados e não lavarmos nossa mão por ninguém, perpetuando um estado de histeria coletiva. Como diria Sartre: "O inferno são os outros" e personagens como o Coringa estão aí para não nos deixar esquecer isso.

Atenciosamente,

A Doutora.

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