Agradeçam ao Ted porque se vocês estão lendo esta crítica, é graças a ele. Eu sequer sabia que isso era um livro antes dele me informar meses atrás.
Isto posto, vamos lá.
Cormac McCarthy. Este nome deveria dizer muito, mas sei que é utopia minha desejar que a maioria conheça. Já fiz uma resenha detalhada de um dos seus livros uma vez, intitulado A Estrada. Na época, dei nota 10 a esse livro.
🤠 EDIÇÃO FÍSICA
Escrita por Cormac McCarthy em 2005, a edição foi lançada no Brasil em 2006 pela Editora Alfaguara. Com 256 páginas em pólen soft, acompanha capa cartonada e primeira e segunda orelhas.
Foi encontrado apenas um erro de digitação na página 209.
🤠 CRÍTICA
Como sempre, à sinopse: Ambientada no Texas dos anos 80, a trama nos apresenta Llwelyn Moss, um caçador que, por acidente, encontra uma mala cheia de dinheiro em meio aos restos dos corpos de um recente tiroteio entre traficantes. Enquanto isso, Anton Chiguhr um assassino implacável, vai em seu encalço, deixando uma trilha de corpos. E entre eles está o Xerife Ed Tom Bell, um homem cansado de seu trabalho, mas que tem um dever a cumprir e buscará de todas as formas fazê-lo.
Para quem não conhece muito das entranhas do universo literário, existe uma discussão sobre Alta Literatura versus Baixa Literatura. Alguns comparam esses nomes com Literatura Artística* (Ver em Glossário Informal no fim da crítica) e Literatura Comercial*, o que é de direito de cada um. Sempre evitei entrar nessas questões porque falar de Alto e Baixo é segregar livros bons, de livros ótimos, de lendários e de livros ruins.
Mas eu caio na tentação de acreditar na existência de Alta Literatura sempre que leio McCarthy.
Eu não vou me prestar ao papel de fazer literatura comparada entre esta obra e A Estrada, a última obra que li dele. Vou sim fazer apenas um paralelo no próximo parágrafo, porque quero exaltar a grandiosidade da arte que o autor insere, como fator “estímulo” para que você o procure em determinado momento de sua vida. Eu não escrevo críticas na ânsia do agora, mas sim na esperança de colocar uma pequena semente literária dentro de você que um dia, assim espero, brotará. Então, cada palavra abaixo, será uma tentativa de inseri-lo num mundo onde a literatura de Cormac McCarthy é considerada, minimamente, acima da média e o convença a dar uma chance a este livro.
Se A Estrada teve caráter mais pedagógico a tratar da singeleza e intensidade de um pai e um filho diante de um mundo pós-apocalíptico, Onde os Velhos Não Têm Vez trata de mudar destinos, seja o seu ou o de outrem. Ou de consumá-los, dependendo da maneira que o livro seja lido.
Focando pouco menos nas relações interpessoais e mais na relação intrapessoal, o livro é a máxima das vicissitudes da vida diante da realidade de cada um e suas escolhas, condenáveis ou não.
Onde os Velhos Não Têm Vez é uma obra com características específicas do Pós-Modernismo literário enquanto abraça outras de Naturalismo*, do qual vou citando as presentes no livro enquanto desenvolvo o texto. Mas a prioritária será o niilismo artístico que pesa sobre todos os criados aqui.
Se tratando dos personagens, Cormac McCarthy tem uma capacidade de desenvolvimento como poucas vezes já vi, sempre usando a falta de didatismo e muitas inferências em para imergir o leitor na narrativa de forma tão assertiva que você poderia senti-los respirar ao seu lado. Existe um certo estoicismo, onde claro, o afeto existe, mas é quase nulo diante da “missão” de cada um.
![]() |
| Há muita merda que eu ainda tenho que encarar nessa história. Ela não vai terminar aqui. Confie em mim, Moss disse. |
Como falei de destinos mais acima, vou me aprofundar um pouco mais aqui. Llwelyn Moss é usado como gatilho da trama. Ao encontrar, e pegar, um dinheiro oriundo de crime, ele percebe que terá de lutar para mudar o final de sua jornada. Lidar com forças amorais é minimamente perigoso. Lidar com forças amorais sem ter pleno conhecimento delas, é condenar-se. Então, diante da possibilidade do inevitável, ele se prepara com seu intelecto e habilidades, se desfaz de qualquer vínculo com quem se importa, coloca de lado seus receios e inseguranças e disposto a ir às últimas consequências para defender as atitudes tomadas, pois “o ontem está feito e o que importa é o hoje”, como o mesmo diz em determinado momento da trama.
Todo o arco de personagem que McCarthy investe é baseado no consumismo, narcisismo, ausência de valores e individualismo. Se apropriar do dinheiro sujo, tornar Anton Chiguhr uma prioridade pessoal na tentativa de voltar a ser mais caçador do que caça, fugir da polícia, mandar a mulher para outro lugar e viver uma aventura off-road. Apesar de haver um flerte de Moss com o hedonismo, é muito mais inferencial e pontual do que escancarado, cabendo assim, a interpretação de cada um.
O Xerife Bell já é mais aberto à interpretações. Voltado tanto ao trabalho quanto a Loretta, sua esposa, ele carrega os pesos de decisões do passado do Vietnã com o o fardo do cargo que ocupa. Ed Tom é um homem moralista e correto, mas com algumas posições questionáveis em nome do dever cumprido na manutenção da lei e da ordem. Há também um certo orgulho que o machuca, uma busca por continuar relevante, algo que nem mesmo ele mais sabe ser possível. Não é mais o personagem da ação, mas o elo de ligação moral entre as consequências das atitudes de Moss e Chiguhr. E isso o diminui. A ressignificação de Bell passa diretamente por ter os outros dois personagens e na sua continuidade de ser uma peça fundamental no sistema em que busca prosseguir.
Ed Tom é onde a âncora do leitor se afunda. Em paralelos atuais é possível perceber todo o medo de ser menos do que outros, onde a nítida disputa nivela pessoas muito mais por baixo do que por cima. Seus conflitos são muito mais contra si mesmo do que contra os outros. Não há catarse, sequer uma válvula de escape. O Status Quo é o que lhe resta diante da patologia social da criminalidade.
Bell também é o responsável por treze minicapítulos que servem como um diário de vida do personagem. Traz um pouco dos bastidores do seu lado humano diante de alguns casos que ele pegou e um pouco do seu passado. Há muito da sua mentalidade que é exposta nesses momentos e sua fragilidade.
![]() |
| Quando entrei na sua vida a sua vida tinha acabado. Teve começo, meio e um fim. Este é o fim. |
Por fim chegamos ao icônico Anton Chiguhr. Ele é instintivo, ameaçador, cruel, despreza completamente a vida das pessoas, sociopata, perigoso e mortal. Ele funciona como personagem unidimensional porque seu trabalho de matador de aluguel exige a unidimensionalidade dentro da trama. Com ele você ri de nervoso, sabe que a chance de jorrar sangue é alta. O livro abre com ele, numa sequência de três páginas dignas de western de alta qualidade. Seu final é metafórico. Visto o tempo todo como uma figura icônica de invencibilidade, ao ser confronto com a própria humanidade, traz o fim mais frustrantemente positivo que já li em um personagem. Perfeitamente simbólico a alguém que começa raso, termina raso, mas que tem uma lição própria a aprender. A conversa dele com a esposa de Moss é tocante e mostra como uma pessoa doente acaba se tornando mais do que todos podem suportar. É doentio e fascinante. O Ser Patológico ganha força com poucas aparições e uma tensão crescente.
A trama é simplória, mas rica nos detalhes. Servindo apenas como ponto de partida e acaba causando mais uma iconografia indireta e certeira em mostrar como o Texas do livro é perigoso e antinatural às pessoas de bem. Essa aparente “pobreza” dá mais liberdade para o desenvolvimento dos personagens, a provocação de algumas questões periféricas sobre como os veteranos do Vietnã seguem suas vidas depois da guerra e o acesso fácil à armas nos EUA. Nestes dois últimos pontos, lida-se muito mais com as consequências do que um diálogo sobre as causas e as inquietações que isso traria. O que não é demérito, já que causa ao leitor ao menos uma reflexão, se houver disposição.
Já as descrições de McCarthy são quase nulas. Não há detalhamentos de cenário, nem mesmo em momentos que a narrativa transita para locais abertos. O que existe é um hiperdetalhamento fantástico de armas, que servem quase como personagens à parte. Neste ponto, é didático, expositivo e sem vergonha de mostrar que se é Texas, um ambiente que sofre com quadrilhas, carteis e com uma lei silenciosa onde o mais forte tem prioridade, então metralhadores, colts e afins precisam do destaque merecido.
A linguagem de McCarthy fascina pela complexidade. Abusando de sentenças longas, muitas conjunções coordenativas e períodos compostos múltiplos, a fórmula soa inicialmente arcaica, mas não se engane, pois há um classicismo poético aqui. Segue um exemplo abaixo:
Não fosse tudo isso suficiente, ele emula com perfeição o sotaque sulista dos texanos com supressão de vírgulas, um certo ar arrastado, mas com velocidade o suficiente para que exija atenção do leitor e uma assimilação mais apurada na busca de não se perder informações.
Caso você não conheça o sotaque da região, segue um vídeo abaixo que ajudará na compreensão da construção do autor.
E para terminar, as mulheres da trama têm a função de passar a sensibilidade masculina e como parte de quem sofre com as más decisões dos outros. Tanto Loretta quanto Carla Jean, esposas, respectivamente de Bell e Moss servem bem ao papel reservado. Funcionam bem e não há demérito na sua simplicidade, estabelecida desde suas primeiras aparições.
Ao final da história a sensação de aleatoriedade da vida passa algo mais intimista. Não há catarse, nem explosão moral ou de fúria, mas sim de que nada está no nosso controle. Nem vida, nem morte, nem planos, nem a nossa busca por alguma coisa que nos satisfaça. Chame de sorte, de destino, chame de vontade divina. Não estamos no controle de nada.
Uma experiência literária intensa, fora do mainstream, que quase ninguém conhece onde, por mais que exista um filme adaptado e oscarizado do mesmo, não substitui a experiência original da primazia escrita.
🤠 NOTA: 10
Até a próxima e boas leituras. Abraços, Saitama de R'lyeh.
🔴 Glossário Informal
Literatura Comercial - Com intenção de ser lido por um público variado com algum grau de previsibilidade.
Literatura Artística - Sem intenção de atingir as massas com padrões pré-definidos
Naturalismo - Movimento Cultural iniciado no século XIX, busca mostrar a vida como ela é. Considerado uma radicalização e extensão do Realismo.




Nenhum comentário:
Postar um comentário