Se aproveitando de toda a expectativa pela revelação do novo ator de James Bond, alguém decidiu usar inteligência artificial para enrolar um dos maiores portais de entretenimento dos EUA. Em agosto, o The Hollywood Reporter apresentou um relatório com detalhes da trama do próximo filme de Bond, além do nome de um ator que já teria feito testes para o papel principal: o desconhecido Scott Rose-Marsh.
Esses detalhes chegaram às contas de e-mail de vários jornalistas da indústria norte-americana, sendo enviados por alguém que se identificava como Michael Lawrence. Vale ressaltar que é muito comum repórteres da indústria terem e-mails criptografados, e encorajarem fontes a enviar informações sensíveis através deles: “Estou fornecendo um e-mail de escalação editado que prova que o ator Scott Rose-Marsh foi testado pelos produtores de Bond”, dizia a mensagem do golpista. No anexo, havia prints de conversas editadas que mencionavam o ator, bem como o codinome "Project Knight".
É válido observar que esse e-mail foi enviado em 24 de junho de 2025, dias antes de Denis Villeneuve ser confirmado pela Amazon MGM Studios como diretor do próximo James Bond, e meses antes de Steven Knight ser oficialmente contratado como roteirista. Seja por uma informação privilegiada (ou muito provavelmente apenas por pura sorte) o golpista fisgou a atenção dos repórteres ao incluir "Knight" no nome falso do projeto, muito antes do criador de Peaky Blinders ser anunciado como parte da equipe criativa.
Para ter certeza que a sua história seria publicada, o golpista usou a tática de pressão sobre a mídia. Ele alegava para os repórteres que estava em contato com outros veículos simultaneamente, e isso "forçou" a equipe do Hollywood Reporter a tomar a dianteira e publicar o "furo" sem fazer uma verificação rigorosa. O repórter Jake Kanter, do Deadline, também recebeu esse e-mail, mas diferentemente da equipe do Hollywood Reporter, decidiu esperar. Ele havia identificado inconsistências no material, o que o fez investigar o caso a fundo nos últimos meses.
Segundo Kanter, o texto do e-mail se parecia muito com algo gerado por IA. Na verdade, não apenas parecia: quando a escrita passou por ferramentas de detecção, foi identificada uma alta probabilidade de o texto ter sido escrito pelo ChatGPT ou similares. Diante disso, o repórter pressionou "Michael" por mais informações, mas o mesmo se recusou a revelar sua identidade. O mais estranho, no entanto, foi o anexo de um suposto trecho de roteiro que supostamente havia sido usado no teste de Scott Rose-Marsh. Como alguém teria trechos de um roteiro tão facilmente, antes mesmo do roteirista ser contratado oficialmente para o filme?
O suposto roteiro enviado por e-mail, no entanto, estava tarjado, o que aumentava o misticismo e a impressão de que (talvez) poderia realmente ser algo vazado. Kanter foi atrás de suas fontes e, obviamente, descobriu que o suposto roteiro era falso — e o documento muito provavelmente também foi gerado por IA. Para piorar, a Amazon MGM Studios não desmentiu a história, seguindo sua tradição de jamais reagir aos rumores sobre Bond.
Foi só no começo deste ano que Jake Kanter resolveu pressionar os executivos para encerrar o caso. Nessa última investigação, uma fonte que não quis se identificar afirmou categoricamente que nunca houve teste com o ator, o roteiro contido no e-mail não tinha nada a ver com o original, e nem Rose-Marsh nem seu agente sequer receberam um e-mail para teste - tudo foi fabricado com o auxílio de IA. Quem ou porquê alguém teria feito isso, são questões que ficam em aberto, mas Scott Rose-Marsh sem dúvida capitalizou muito bem com esse rumor falso. No ano passado, o ator concedeu uma entrevista à revista australiana Man of Many, com a manchete: “Conheça Scott Rose-Marsh, o homem que pode ser James Bond”, e quando questionado se teria feito tal teste, Rose-Marsh respondeu: “Não posso confirmar nem negar”.
Depois de comprovar a farsa, Kanter procurou o ator para ouvir a versão dele do caso. Rose-Marsh disse ao Deadline que a especulação “pode ter surgido de um teste anterior relacionado a Bond”, mas se recusou a dar detalhes devido a um suposto acordo de confidencialidade (NDA). “Eu não concordo nem compactuo com farsantes”, disse o ator. “Não comento rumores, mas é gratificante que as pessoas pensem que um ator em ascensão como eu poderia realmente ser James Bond". O agente de Rose-Marsh, Gregg Millard, por sua vez declarou que aconselhou seu cliente a ser contra a entrevista para a Man of Many, chamando-a de "ingênua", e afirmou não saber nada sobre isso.
Você que lê isso pode naturalmente estar pendente a olhar apenas para o que soa ser o único ponto aqui: uso de IA para propagar uma farsa. Mas no fim das contas, um caso como esse expõe muito menos a sofisticação de um golpista, e mais a fragilidade de quem parece cada vez mais preocupado em ser um refém da ânsia de publicar algo, sem ao menos analisar o que tem em mãos - e isso vale até para quem está apenas repercutindo tal coisa.
A pressa por conteúdo transformou verificação e questionamento em "chatices", e não em uma etapa básica e essencial desse processo. E em um cenário onde ferramentas de inteligência artificial tornam fraudes mais convincentes e acessíveis, a pressa deixa de ser apenas um risco editorial e passa a ser um golpe direto à própria credibilidade de quem o faz - exatamente o que sustenta a próxima farsa. Fica o questionamento se ser enganado por IA já deixou de ser apenas uma justificativa, para se transformar em uma desculpa pré-pronta.
Por: Riptor
Fonte: O Vício

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