quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Isso é Insano

 


Olha, vamos falar desse Resident Evil do Zach Cregger (mas não é nem sobre as reviews que já saíram, e afins) isso aí o Marcilio que poste, porque o que eu quero destacar é a verdadeira barbárie que foi criada em volta desse filme.



Veja bem, não estou falando do filme em si (que sem zueira, pra quem quiser pagar pra ver isso aí, eu quero mais é que você curta, namoral) porque pra mim foda-se, ou mesmo do Zach Cregger em si, que eu nunca escondi aqui que eu (particularmente, em minha opinião que só vale pra mim, e pra quem concordar com ela) o acho um diretor superestimado, cujos filmes ou terminam, ou começam a se encaminhar no meio de sua execução, pra mediocridade. "Ain, mas a atriz do Weapons, ganhou um Oscar", enfia no teu rabo, cara. Parabéns pra ela, mas agora me dá licença, que eu vou pedir o dela emprestado, pra você pode enfiar nesse teu rabo, que tal?

O que eu vou realmente esbravejar aqui, não é se você gostou do que viu do filme, se você quer ver o filme, se você comprou a idéia do filme, se você tá de mente aberta ("ain, vai de mente aberta", aberta só se for do seu c*, porque o meu é fechado) pra idéia do filme, não é sobre isso. É sobre o nível baixo, que certos cantos internet a fora se propuseram a chegar, pra defender essa porcaria de filme - ou melhor, o diretor dessa porcaria, que decidiu fazer um filme que se chama "Resident Evil", sobre a porra de um entregador de órgãos. Que eu "carinhosamente", já tinha o apelidado de Zé Coração.



"Personagem nenhum de RE é escrito de forma minimamente convincente", assinado, alguém que parece querer "explicar" que havia uma necessidade crônica de criar um personagem original para protagonizar esse filme, pra então poder tentar de fato dar uma profundidade a ele, porque os personagens dos jogos aparentemente, "não tem isso". O que é nada mais que ignorar construções, motivações e evoluções bastante coerentes e visíveis neles.



Quer um exemplo? Jill Valentine - construída como alguém marcada pelas suas experiências, mas que continua exercendo sua função por um senso de responsabilidade. Em RE3, deixa Raccoon City não simplesmente "porque precisa salvar o mundo", mas porque existe uma relação clara com o trauma e com a vontade de sobreviver ao pesadelo que já viveu. Ou então Claire - sua motivação inicial sendo extremamente simples, mas nem por isso menos humana: encontrar o irmão. Depois, passa a se envolver com outras vítimas, principalmente crianças, e isso ajuda a estabelecer uma característica recorrente da mesma: uma preocupação forte com pessoas vulneráveis. Code: Veronica, aliás, extende isso ainda mais.



E o que dizer do Leon. Em RE2 é apresentado como um novato que acabou de chegar à polícia e é imediatamente jogado em uma situação completamente absurda. Em RE4, ele já é alguém  muito mais experiente, com uma postura mais fria e até mesmo sarcástica - o pode ser entendida como uma consequência dos acontecimentos que passou. Não é uma caracterização extremamente complexa, mas existe uma continuidade ali.



"Quanto mais cedo os fãs de jogos aceitarem que o seu "hobby" não possui nenhum conteúdo bom o suficiente para ser adaptado a outras mídias, a vida deles (e a de quem não aguenta mais esse povo desesperado por validação de quem trabalha em outras áreas da arte) melhorará"

Esse arjumento é ainda mais fácil de contestar, porque ele parte de uma premissa falsa e transforma uma discussão sobre adaptações em uma hierarquia entre mídias. Insinua (e se não foi a intenção, você é burro) que videogames precisam provar que possuem "conteúdo bom o suficiente" para serem adaptados, como se literatura, quadrinhos, teatro ou cinema fossem formas de arte inerentemente superiores. Não existe nenhuma razão lógica pra estabelecer esse tipo de critério, pra você defender diretorzinho, meia tigela. Resident Evil já possui elementos narrativos perfeitamente adaptáveis: personagens reconhecíveis, conflitos, ambientações, criaturas, mitologia, relações entre personagens e histórias estruturadas. Tu pode até discutir se determinado jogo é uma grande obra, ou não, mas isso é completamente diferente de dizer que ele não oferece material suficiente para uma boa (e fiel) adaptação. E enfia no teu rabo "emular a experiência de jogar RE"



E ainda existe uma contradição curiosa aí: se a proposta de uma adaptação é tão diferente que praticamente não utiliza os personagens, conflitos ou identidade da obra original, por que usar a propriedade intelectual em primeiro lugar? Uma adaptação não precisa ser uma reprodução literal do jogo, evidentemente. Ela pode mudar estrutura, tom, personagens e até acontecimentos. Mas existe uma diferença clara entre interpretar uma obra, e usar apenas o nome dela como ponto de partida. 


E também não faz sentido transformar a insatisfação devida (veja bem, a devida) de fãs em "desespero por validação de quem trabalha em outras áreas da arte". O fã que critica uma adaptação não está necessariamente dizendo que videogames são superiores ao cinema, ele pode..hum..simplesmente estar dizendo: "Eu não gostei da maneira como essa obra foi adaptada", e isso é uma crítica perfeitamente legítima.



Aliás, a própria existência de boas adaptações de videogames enfraquece essa tese de que o problema está na suposta incapacidade de jogos de fornecer "conteúdo bom". E ainda nesse caso específico de Resident Evil, também é importante separar isso em duas discussões: uma coisa é defender que esse novo filme pudesse tomar liberdades criativas. Outra é afirmar que uma parcela de fãs não deveriam reclamar quando essas liberdades fossem tomadas. A primeira é uma posição perfeitamente razoável; a segunda simplesmente tenta invalidar antecipadamente qualquer crítica, o que é ridículo, pavoroso, monstruoso e, dependendo da onde isso é comentado, até uma tentativa de censura.



Você, sim você que não é a esse nível, tu pode defender o Zach Cregger e acreditar que ele merece liberdade criativa para fazer "sua versão" de Resident Evil. Mas acho que mesmo você, vai concordar comigo, que isso não exige declarar que os jogos são artisticamente inferiores ou que seus fãs são "desesperados por validação". Não é um argumento contra uma adaptação específica. É apenas uma generalização sobre videogames que não demonstra por que esta adaptação deveria funcionar de tal forma.



E por fim: "Não importa se o roteiro vai ser bom, se vai ser bem avaliado ou ter uma boa bilheteria, o que importa é ver atores fazendo cosplay do seu personagem favorito na tela do cinema né?"

Esse argumento também é mais uma caricatura de fãs do que uma resposta à crítica deles. Apenas pressupõe que um fã só se importa com reconhecimento visual, quando existem vários motivos legítimos para querer fidelidade em uma adaptação, mesmo dentro do panorama comum e esperado de determinadas mudanças. Isso apenas reduz uma discussão legítima sobre adaptação a "quero ver meu personagem favorito fazendo cosplay", como se fidelidade visual fosse a única coisa que os fãs de Resident Evil pudessem esperar de um filme.



Ninguém está dizendo (ou pelo menos eu, vou me usar de exemplo) que um filme de RE seria bom simplesmente porque tem Leon, Jill ou Chris usando a roupa dos jogos. É perfeitamente possível querer um bom filme e, ao mesmo tempo, esperar que ele preserve elementos fundamentais da obra que está adaptando. Um fã pode se importar com roteiro, direção, atuação, fotografia, o elemento do terror, desenvolvimento de personagens e, além de tudo isso, com a maneira como o filme representa Resident Evil. Essas coisas não são mutuamente excludentes, e "cosplay" nem sequer é uma crítica particularmente útil



Também existe uma inversão curiosa nesse argumento: se o filme tiver um roteiro excelente, for bem dirigido e for bem recebido, ótimo. Mas isso não transforma automaticamente qualquer decisão de adaptação em uma boa decisão, ou ausenta alguém como eu, de criticar. Qualidade cinematográfica e fidelidade à obra original são critérios diferentes. Um filme pode ser bom e ser uma adaptação ruim; pode ser uma adaptação fiel e ser um filme ruim; pode ser bom e uma boa adaptação; e pode ser ruim nos dois aspectos.



Portanto, criticar uma escolha do filme por ela descaracterizar Resident Evil não significa que a pessoa esteja ignorando o roteiro em favor de "ver cosplay". Significa que ela está avaliando o filme como filme e como adaptação. E honestamente, existe uma diferença enorme entre dizer "quero que seja exatamente igual ao jogo" e dizer "quero que a adaptação tenha alguma relação significativa com aquilo que está adaptando". Colocar as duas posições no mesmo saco é uma maneira conveniente de "ganhar" uma discussão, antes mesmo de sequer começar ela.



E ah, e o ponto central nessa, pra não cair também na armadilha de aceitar a falsa dicotomia: ou você quer um bom filme, ou você quer fidelidade ao jogo. O fã pode querer as duas coisas, e pode até aceitar mudanças substanciais, desde que elas tenham uma justificativa artística e funcionem pra ele, dentro dessa versão. Todo mundo aqui por exemplo, que lê e acompanha o tipo de coisa que eu falo no blog, sabe que eu falo muito de adaptação, eu aceito mudanças, e até defendo elas quando vejo sentido e, principalmente, se o principal daquilo que eu gosto, está ali. Só que da mesma forma que eu posso defender, eu meto o pau na mesma intensidade.



Enfim, é só isso que eu queria dizer. Minha opinião não muda porque a crítica gostou ou desgostou, se vai dar dinheiro ou não, e independente disso, eu nunca vou tentar impor ou invalidar alguém que discorde de mim. Caralho, o Marcilio é o completo oposto de mim em relação a esse filme, e tá tudo certo! Agora, não achem que eu vou concordar, ou muito menos apoiar, uma obra que é defendida de uma maneira tão esdrúxula feito essa.



E digo mais, você pode gostar do Zach Cregger, dos filmes dele. Agora essa parte de gente que eu venho vendo que tá fazendo essa merda que eu falei (teoricamente, "fãs" do cara) eu chamo é de seita. Desde os Snydetes eu não vejo um público tão intolerante, mesquinho e impositor de verdades quanto esse, tudo em nome de um mero diretor de cinema. E por isso mesmo, pra mim chega, encerrei com esse filme com esse post.


"Ah Rip, mas você tá sendo muito radical".



Por: Tu ainda tem Dúvida?

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