Depois de tudo que aconteceu no capítulo anterior, finalmente chegamos ao 5° episódio de 'Lanternas', responsável por encerrar a história ambientada na linha temporal de 2016 — e Rushville não poderia terminar esse arco de maneira mais caótica. A cidade vira literalmente um campo de batalha, enquanto Hal e John de fato chegam ao ponto em que precisam lidar, cada um à sua maneira, com tudo aquilo que aconteceu desde que colocaram os pés naquele lugar. E olhando para o episódio como um todo, talvez a pergunta mais adequada seja justamente a do título desse post.
Antes de vermos o desdobramento desse caos, o episódio volta para 2007 para explicar como Kerry chegou a Rushville. Na época, ela estava fugindo de um criminoso de Gotham depois que seu pai (que havia delatado o chefe da organização) foi assassinado, e ela seria a próxima. Com o carro quebrado no meio do caminho, ela entra em uma lanchonete para tomar um café e acaba encontrando dois homens enviados para eliminá-la. Um deles demonstra até certa resistência em cumprir a ordem, mas a situação muda completamente quando Zoe aparece e dá conta dos dois.
Ela então oferece a Kerry uma maneira de desaparecer: para convencer o criminoso de Gotham de que ela realmente morreu, Kerry corta o próprio dedo mindinho e o deixa como prova para um dos capangas sobreviventes levar de volta. O detalhe interessante é que, em cenas anteriores, vemos Kerry com o dedo intacto — justamente porque já sabemos que a pessoa que a salvou é capaz de reconstruir partes do corpo graças à tecnologia alienígena. É aqui que o episódio deixa bastante claro que o relacionamento entre as duas nunca foi baseado em altruísmo: Zoe precisava de Kerry. Ela sabia que, em algum momento, homens perigosos viriam atrás dela e já estava construindo uma espécie de milícia particular para se proteger. Em troca de ter sua vida salva, Kerry deveria fazer parte desse grupo, o que muda completamente a leitura de suas atitudes ao longo da temporada.
Kerry sempre soube que havia um Caçador Cósmico em Rushville, e sabia que ele era Zoe. E, desde a chegada de Hal e John, tentou repetidamente convencê-los a simplesmente deixar a cidade. Só que havia uma diferença importante: os tais homens perigosos que Zoe esperava não eram os Lanternas Verdes, mas os seguidores de Aantan. Hal e John apareceram ali por um motivo que ninguém havia planejado — e, mais uma vez, foi a intuição de Hal que acabou levando a dupla até onde ninguém queria que eles chegassem.
Falando nele, depois de provocar o acidente que deixou John ainda preso no carro, Hal poderia simplesmente ter seguido o caminho que Sinestro havia sugerido - mas ele mantém sua posição de não voltar atrás com sua afirmação que não mataria John. Seu objetivo ao provocar o acidente era apenas deixá-lo incapacitado, enquanto ele encontrava Zoe e a entregava aos Guardiões. O problema surge mesmo depois, ainda mais com a própria Zoe não demonstrando qualquer interesse em salvar John. Enquanto o carro destruído começa a pegar fogo, ela simplesmente observa - o que exemplifica perfeitamente aquilo que o episódio revela sobre sua personagem.
Zoe realmente pretendia deixar John em condições de ser manipulado por sua tecnologia e, posteriormente, cobrar um favor: que ele permitisse que ela matasse Hal e depois contasse aos Guardiões uma versão conveniente da história, onde Jordan teria morrido heroicamente enquanto protegia Rushville de Aantan. O detalhe sobre Abin Sur também finalmente é esclarecido, onde Zoe confirma que estava sendo transportada por ele em sua nave, e que acabou matando-o para preservar seu segredo e continuar escondida na Terra.
Enquanto tudo isso acontece, Hal encontra Aantan e descobre ainda mais sobre os Caçadores Cósmicos. Ele já sabia que aquelas criaturas eram capazes de assumir identidades conhecidas dentro de uma comunidade e fortalecer seus disfarces ao se integrarem à população, mas há outra camada: eles aparentemente procuram pessoas em posições socialmente vulneráveis para compreender melhor os costumes humanos e se aproximar delas. Depois, usam essa proximidade para conquistar pessoas importantes — inclusive através de relações íntimas. Há até espaço para uma pequena piada no meio disso tudo. Para conseguir manipular Aantan, Hal chega a fingir ser bissexual, usando a situação para distraí-lo enquanto pretende colocar o restante do plano em prática: ele diz ao mesmo que William Macon seria o Caçador Cósmico, e afirma que John havia sido comprometido por ele.
Quando o mesmo chega à fazenda dos Macon, William decide sustentar a mentira, não apenas assumindo ser o Caçador Cósmico, como também demonstrando que aprendeu a linguagem de Aantan. Mas eis que a história fica ainda mais complicada: Aantan já havia se envolvido com Zoe, que o manipulou para ajudá-la a subjugar seu próprio planeta, enquanto ele lamenta nunca ter conseguido ter filhos com ela. Aantan o mata e arranca seu coração, apenas para perceber que William não passava de um humano.
Após perceber que foi enganado, Aantan ativa seu mecanismo de autodestruição - mas antes que consiga explodir, Hal consegue contê-lo com um construto em forma de redemoinho, fazendo com que a explosão aconteça no céu, em meio a sua tentativa de lidar com Zoe. Então, sim: aquelas teorias de que Aantan poderia ser Atrocitus disfarçado até tinham alguma lógica dentro do que a série estava apresentando. Mas o resultado final é bem diferente: era simplesmente um alienígena metamorfo, que passou boa parte da história tentando conseguir vingança.
Enquanto Hal tenta controlar tal caos, John sai do hospital e espera no hotel pelo veterano: ele agora quer o anel, e está disposto a tomá-lo à força. A luta entre os dois é brutal, até que um disparo da Caçadora Cósmica interrompe o confronto. E é nesse momento que John parece finalmente entrar em um grande "tanto faz" em relação a todo mundo que passou a dizer o que ele deveria fazer. Ele vai seguir os próprios instintos.
Primeiro, tira o anel de Hal; depois, utiliza o próprio veterano como isca para enganar Zoe, e o desfecho é definitivo: John atira na cabeça da Caçadora Cósmica e, para garantir que ela não volte à vida, arranca seu coração. O órgão imediatamente se transforma em cristal.
Aliás, o próprio episódio (com seu ápice ficando no conflito entre a dupla entrando em seus finalmentes) deixa claro uma influência inegável de uma das histórias mais controversas da trajetória de Hal Jordan nos quadrinhos: Crepúsculo Esmeralda. Tal comparação não acontece, no entanto, por uma repetição da história, mas com uma ideia muito mais específica: o que acontece quando alguém que já perdeu quase tudo chega ao limite, e passa a acreditar que não pode perder aquilo que ainda lhe resta?
Nos quadrinhos, a destruição de Coast City leva Jordan a um colapso completo. Em sua tentativa de recuperar aquilo que perdeu, ele parte para Oa, enfrenta (e até mesmo mata) antigos companheiros, antes de absorver o poder da Bateria Central, transformando-se em Parallax. Posteriormente, a mitologia dos Lanternas reformularia esse acontecimento ao estabelecer que Parallax sempre foi a própria entidade do medo, e que sua influência havia contribuído para a queda de Hal. A série, obviamente, ainda fica muito longe de reproduzir esse nível de radicalização.
Aqui, Hal continua sendo de fato um herói, e muito menos sai matando pessoas ou cruzando completamente aquela linha. Isso, no entanto, não significa que suas ações não tenham consequências: durante o caso de Rushville, sua obsessão em não perder o anel faz com que ele tome decisões cada vez piores, que acabam atingindo outras pessoas. E é justamente aí que a adaptação encontra seu próprio caminho, onde Hal não foi de fato "corrompido" pelo poder do anel. Seu real dilema, é que ele já não sabe exatamente por que precisa tanto dele.
Para Hal, ser um Lanterna Verde deixou de ser apenas uma profissão ou uma responsabilidade, para virar sua vida inteira. Ele perdeu pessoas, se afastou de tudo e passou anos patrulhando o universo. Enquanto continuava cumprindo seu dever, talvez os Guardiões nem se importassem tanto com o preço que isso cobrava dele. Mas agora envelhecendo, questionando o próprio sistema e se tornando cada vez mais difícil de controlar, a solução dos Guardiões se torna simples: substituí-lo.
E é justamente daí que o poder que deveria representar responsabilidade, também pode se transformar naquilo que impede alguém de seguir em frente. Para Hal, o anel "preencheu" justamente um vazio que ele nunca conseguiu preencher de outra maneira. Ele não construiu uma vida - construiu uma existência em torno de ser um Lanterna, e por isso mesmo, perder o anel significa muito mais do que só perder uma arma. Significa descobrir o que existe além dela.
Já John passa por um processo inverso. Durante boa parte de sua vida, ele foi condicionado a acreditar que precisava se tornar um Lanterna Verde (com o 3° episódio já tendo mostrado como essa expectativa foi construída ao redor dele) mas Rushville finalmente permite que ele enxergue as consequências dessa escolha por conta própria. Ao lado de Hal, ele começa a perceber que há coisas estranhas acontecendo. Ele não conta aos Guardiões sobre Zoe, e também não conta tudo a Hal. Mas, ao mesmo tempo, não aceita simplesmente seguir o plano de Zoe e deixar seu mentor morrer. Aos poucos, John entende que o poder que sempre lhe foi apresentado como um objetivo, pode ser apenas mais uma ferramenta de controle.
E talvez essa seja a verdadeira razão pela qual sua decisão final funciona tão bem. Depois de tudo, John encontra Lianna, não para receber uma condecoração, nem para ser tratado como o novo grande Lanterna: John não aceita o destino que prepararam para ele, e simplesmente entrega o anel. Ele decidiu que não quer aquele fardo, e vai embora para viver sua vida. Mas John realmente está livre?
É uma decisão que conversa diretamente com o que vimos no final do primeiro episódio, onde em 2026, John continuou sendo apenas John - mas até quando? Afinal, a história claramente não terminou para ele. Mesmo recusando o anel, a resposta para o que realmente aconteceu com Hal pode depender justamente de John tendo de novamente entrar no centro desse conflito. E se os Guardiões realmente acreditam que precisam decidir o que é melhor para a segurança do universo, talvez John não tenha tanta liberdade quanto imagina.
A ideia de poder pode ser uma bênção ou uma maldição dependendo de quem o recebe — mas também depende do momento em que ele chega. John descobriu que nem todo poder precisa ser aceito, enquanto Hal descobriu que poder demais pode ser justamente aquilo que impede alguém de perceber quando está errado. Talvez nenhum dos dois tenha saído realmente vencedor dessa história.
De toda forma, existem dez anos entre essa história e a linha temporal de 2026, e praticamente qualquer coisa pode acontecer em um período de tempo como esse. Sabemos, por exemplo, que Guy Gardner passará a fazer parte da história daqui para frente, e isso inevitavelmente levanta perguntas sobre a sucessão dentro da Tropa. Lembrem-se que o anel de Guy não parece ser simplesmente o mesmo que pertencia a Hal, portanto, a ideia de que Guy teria sido simplesmente colocado no lugar de John como "o novo substituto direto" de Jordan não parece explicar tudo o que a série ainda está preparando.
No fim das contas, o quinto episódio consegue encerrar o mistério de Rushville, mas deixa um pensamento mais interessante no lugar dele. Hal começou a história tentando entender o que estava acontecendo, enquanto John começou tentando provar que merecia estar ali. E, no meio disso tudo, dois homens que deveriam trabalhar juntos terminaram separados por aquilo que mais os aproximava: a responsabilidade de carregar um anel. Nesse cenário, bastou medo, desconfiança, manipulação e pessoas tomando decisões enquanto acreditavam estar fazendo o necessário.
Uma parte do mistério finalmente chegou ao fim. Agora, falta descobrir o que aconteceu com a outra.
Por: Riptor










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