segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Saitama Critica #6: As Crônicas Marcianas - Livro

Marte fascina o ser humano há muitos séculos. São cálculos, milhares de imagens de telescópios, fotos de satélites e atualmente, rovers por lá que fazem experimentos no solo marciano.

É óbvio que algo tão fascinante teria seu lugar garantido na história da literatura. E hoje vamos falar sobre uma das obras mais interessantes sobre o tema, escrita por Ray Bradbury.


Para quem não conhece, Ray Bradbury é mais famoso pela sua obra Fahrenheit 451, uma distopia sobre uma sociedade em que a leitura era proibida e os livros eram queimados por Bombeiros (é isso aí. Bombeiros queimavam livros.). Mas As Crônicas Marcianas tem alguns diferenciais que a tornam essencial para quem gosta de histórias sobre o Planeta Vermelho.

Bora para a crítica.


🌎 EDIÇÃO FÍSICA

Publicado originalmente em 1950 por Ray Bradbury, a edição lida foi publicada em 2012 pelo selo Biblioteca Azul, uma subdivisão da Editora Globo. Com capa e contracapa cartonadas, 1ª e 2ª orelhas e com 296 páginas em Pólen Soft.

De erros encontrados, há apenas um trecho na página 83, onde falta vírgula na frase "Está vendo   capitão, foi isso que (...)". 

Ademais, é uma edição bonita, convidativa e muito bem traduzida por Ana Ban.


🌎 CRÍTICA

Eu não vou falar sobre todos os contos* (Ver Glossário Informal ao fim da crítica) aqui, mas vou pincelar seus assuntos na crítica que se inicia. Vou deixar a curiosidade fluir de quem se interessar pelo universo criado por Ray Bradbury, até para não cair em spoilers pesados.

À sinopse: A Humanidade decidiu colonizar Marte. E entre viagens espaciais, encontros estranhos com alienígenas e desencontros sobre o que esperar do novo lar, os humanos enfrentarão mais do que resistência Marciana, mas mistérios e problemas em seu próprio planeta natal.

Os contos são divididos em 26. Segue abaixo sua relação:

✔ Janeiro de 1999: O verão do foguete
✔ Fevereiro de 1999: Ylla
✔ Agosto de 1999: A noite de verão
✔ Agosto de 1999: Os homens da Terra
✔ Março de 2000: O contribuinte
✔ Abril de 2000: A terceira expedição
✔ Junho de 2001: ... E a Lua continua brilhando
✔ Agosto de 2001: Os colonizadores
✔ Dezembro de 2001: A manhã verde
✔ Fevereiro de 2002: Os gafanhotos
✔ Agosto de 2002: Encontro noturno
✔ Outubro de 2002: A praia
✔ Fevereiro de 2003: Intermédio
✔ Abril de 2003: Os músicos
✔ Junho de 2003: Flutuando no espaço 
✔ 2004-2005: A escolha dos nomes
✔ Abril de 2005: Usher II
✔ Agosto de 2005: Os Velhos
✔ Setembro de 2005: O marciano
✔ Novembro de 2005: A loja de malas
✔ Novembro de 2005: A baixa estação
✔ Novembro de 2005: Os observadores
✔ Dezembro de 2005: As cidades silenciosas
✔ Abril de 2026: Os longos anos
✔ Agosto de 2026: Chuvas leves virão
✔ Outubro de 2026: O piquenique de um milhão de anos

A obra é contada por um Narrador-Observador*, que cobre 27 anos desde o início da colonização de Marte até seu final.

Ray Bradbury tem um bom domínio da linguagem usada aqui. Discurso Direto para falas e diálogos, com pequenas variações de Indireto, abusando de travessões, verbos de elocuções, dois pontos e aspas. Para pensamentos, o uso é de Discurso Livre Indireto, onde não há divisórias pela pontuação e tornando as interlocuções diluídas ao texto e não como algo à parte, causando alguma espontaneidade ao texto quando necessário (NOTA: A última vez que me fascinei pela riqueza de uma escrita foi em A Estrada, de Cormac McCarthy, que fez o livro todo em Discurso Livre Indireto).

O tom lúgubre da obra disputa espaço com a inocência e o vintage, consequência direta dos anos 40. O fúnebre abraça o ludismo de forma pessoal em diversas histórias, seja na discrição das memórias que o livro insiste em te recordar durante os contos ou quando é dito com todas as letras sobre alguma tragédia que se abate, seja civilizatória, ou numa hecatombe. Há um clima real de despedida em toda narrativa do autor e como ele brinca com os sentimentos do leitor ao dosá-lo é uma bela aula de escrita.

Outro destaque é como o livro brinca com dois conceitos de Determinismo Absoluto*, um pelo ponto de vista dos humanos e outro pela ótica dos Marcianos. Cada um tem seu peso para que as tramas, mesmo separadamente, aconteçam. Ainda que o desenvolvimento principal se dê pelo lado dos visitantes terrestres, ambas são decisivas para os destinos das espécies.

Como a primeira foto nítida de Marte só foi tirada em 1965 pela nave Mariner 4, a visão romantizada que se tinha do planeta era de verdes pastos, possibilidade de vida abundante e cidadelas. Isso também se reflete na obra, em tons mais amigáveis, onde soa mais esperançoso do que uma busca ideal por realidade. 

Imagem feita pela sonda Mars Express em junho de 2019

Ao contrário de obras anteriores a esta com a mesma temática, como Guerra dos Mundos (1897) e A Princesa de Marte (série iniciada em 1917), onde há uma linguagem totalmente virada à prosa quanto contação de história, As Crônicas Marcianas traz três elementos subjacentes e decisivos em seu sucesso: a melancolia, lirismo e a filosofia.

A melancolia, para quem conhece o livro Fahrenheit 451 (1953 - que aliás, tem dois easter-eggs neste livro), sabe que não é exatamente uma novidade o uso deste artifício na maneira que Ray Bradbury construía a narrativa de algumas obras suas. Em As Crônicas... é possível sentir isso desde o primeiro conto e como este sentimento está acima dos outros que serão destacados nos próximos dois parágrafos. Assim, se estende em todos os outros 25 contos seguintes. Não há latência, mas uma introdução sutil disso nas entrelinhas da escrita do Narrador-Observador. Ele conta a história de forma prosaica, mas que consegue imprimir o sentimento. Neste ponto, posso destacar dois contos: "Os Homens da Terra" onde astronautas da Segunda Expedição chegam a Marte e não são recebidos como gostariam pelos nativos do planeta e "Chuvas Leves Virão" onde Bradbury transforma a passagem de tempo de uma casa em algo triste e reflexivo.

Portanto, se o Narrador-Observador se ressente de forma contida com o avanço humano sobre Marte, o lirismo também está evidente na maneira subjetiva que cada personagem enxerga sua passagem narrada. Isto está exposto em quase todos os contos, mas se sobressai em "... E a Lua Continua Brilhando", com a figura do astronauta Spender como um contraponto letal aos seus companheiros da Quarta Expedição, ao ver quão rica era a cultura Marciana. Contra Spender está o Capitão Wilder, mas a contragosto em sua posição. Ele entende o que seu amigo vê, mas precisa detê-lo, já que o mesmo entrou em uma espiral de morte na busca de defender o que restou dos seres que lá moravam antes. Não há lado certo ou errado aqui, mas sim como esses lados agem para alcançarem seus objetivos.

A filosofia é algo que se aproxima muito mais da moral dos fatos, ou da ética, se preferir. Cada capítulo te lembra, mesmo que indiretamente, que a permanência dos humanos em Marte, assim como sua chegada, custou a vida de milhões de marcianos que apenas queriam viver suas vidas e que sequer sabiam da existência de seres fora de seu planeta. E isso é massacrante. Ray Bradbury não divide tanto esse peso com os personagens, com exceção de alguns poucos, mas com o leitor.

Transformar o leitor em testemunha ocular do massacre, da destruição cultural, das crianças chutando, inocentemente, restos de cadáveres alienígenas, do preconceito com negros, mexicanos, chineses e do monopólio americano sobre o Planeta Vermelho, é aflitivo.

Ray Bradbury (1920 - 2012)

Quanto obra de Ficção-Científica, a obra subverte seus subgêneros como Invasão Alienígena (aqui, neste caso, feito pelos humanos) e Primeiro Contato (causado também pelos humanos e a necessidade de quatro expedições para isso. Há também alguns toques New Weird (horror/terror), Inteligência Artificial, e Apocalipse. Sim, a gama de subdivisões exploradas é vasta em As Crônicas Marcianas.

Apesar do livro se focar quase exclusivamente em ser uma crítica Pós-Segunda Guerra Mundial com seus perigos atômicos e consequências de uma apatia americana, decorrente do cansaço da época, há espaço para algumas metáforas sobre indígenas sofrendo de doenças do "homem branco" das quais não têm imunidade, governos totalitários, exploração de mão-de-obra, elitismo, avanço tecnológico humano sobre longevidade e velhice onde um planeta longínquo pode servir de isolamento para as dores do passado. O terror também se faz presente num conto-homenagem a Edgar Allan Poe, intitulado de Usher II. Há nesta história específica, humor negro, um "q" de mistério, robótica (algo que se reflete de outra forma na história "Os Longos Anos") e a vingança que se expande pelo espaço sideral. É bem interessante e dá um ar de frescor à trama.

Há também valia na maneira como os marcianos, apesar de tecnologicamente superiores, conseguem ser tão sentimentais quanto os humanos, inclusive se entregando ao ciúmes no conto "Ylla" e ao recorrer à autodefesa através do assassinato em "A Terceira Expedição". O contraste é muito mais moral e nisso reside parte da graça do livro. Tão próximos, tão diferentes e ainda assim tão semelhantes nas pequenas coisas. 

É louvável que cada um desses temas tenha uma abordagem própria que varie entre humor sutil e tristeza e contemplações escancaradas sobre o que fazemos com nosso planeta e o que faríamos com outro se para lá fôssemos. Mas eventualmente, a narrativa sofre de falta de foco por ser multifacetada nas entrelinhas. Está longe de ser desgastante de forma negativa, mas as constantes direções diferentes a cada conto podem sim, espantar os que estão habituados com um autor mais contemporâneo dos últimos 20 ou 30 anos.

Existem também alguns contos que servem de apresentação dos contos seguintes. Dentro do desenvolvimento do livro, se tornam pouco interessantes no geral, pois ficam previsíveis na proposta de ligação entre histórias. Mas alguns contos de uma página ou duas são realmente chamativas, como "O Verão do Foguete", "O Contribuinte", "Os Colonizadores" e "As Escolhas dos Nomes".

Esse aceno, por vezes excessivo do autor, à necessidade de dar voz aos seus pensamentos e posicionamentos políticos de centro podem soar como simplista aos extremistas de plantão, quem sabe até mesmo soar como uma crítica direta ao governo democrata do então Presidente Roosevelt. Mas lembrando que ele próprio era um escritor com visões conservadoras quanto personagens "representativos", inclusive nas próprias obras. O argumento perde ainda mais força quando recordamos da crítica a um governo ultra-conservador em Fahrenheit 451.

Presidente (1933 - 45) Franklin Delano Roosevelt (1882 - 1945) 

Apesar do livro ser focado em temas tão fortes ou de uma certa
polêmica, tem muita sutileza inferida no trato dos mesmos. Ray não apela ao escândalo, nem mesmo ao escatológico. Por ser uma obra dos anos 40, a intenção de contar uma história na criação de mosaicos diversificados em temas expandidos é mais galgada em ser produto da própria época do que na vanguarda sempre buscada pelos seus pares.

As Crônicas Marcianas consegue transitar entre temas com uma certa organicidade, assim como usa de uma didática tocante em seu desenvolvimento mesmo que eventualmente caia na armadilha de querer ser multitarefa na moralidade e na crítica. Atual, ainda que com ar clássico, provavelmente deveria ser material de estudo de filósofos e astrobiólogos e por que não, de governos que sonham em conquistar o espaço. Não é apenas uma obra que eu recomende aos amantes de Ficção-Científica, mas também aos que gostam de ver temas sociais embutidos neste gênero tão vasto e intimista.

🌎 NOTA: 8,5

OBS: Não confundir o livro As Crônicas Marcianas com As Crônicas de Marte (2013) editada por George R.R. Martin, que é realmente muito ruim.

🔴Glossário Informal 
Contos - História de narrativa mais curta, com menos personagens principais e que apresenta um só conflito. Espaço e tempo aqui também são reduzidos.
Narrador-Observador - Narrador que permanece de fora da história, sem necessariamente conhecer os personagens a fundo, ou expressar seus sentimentos diante dos fatos que são expressamente narrados.
Determinismo Absoluto - Uma variação do Determinismo, onde, neste caso, tudo o que acontece seria inevitável e necessário por consequência apenas de uma causa inicial.

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