O Post a Seguir contém SPOILERS, então se Ainda não Viu, Continue por sua Conta & Risco - E em Especial Aqui, Leia!
Retomada e sendo seu foco na semana passada, eis que a investigação de Rushville ganha uma pequena 'pausa', para que o 3° episódio de 'Lanternas' possa se focar inteiramente na história de origem por trás de John. Ambientado meses antes dos eventos da investigação, o capítulo funciona praticamente como uma entrevista de emprego cósmica - já que antes de se tornar o aprendiz de Hal, John precisa convencer uma Guardiã do Universo de que é digno de portar um anel, enquanto a trama se intercala em três linhas de flashback: uma para a infância de John, outra para sua última missão nos fuzileiros e a última envolvendo sua entrevista.
Há com certeza muito o que discutir aqui - e infelizmente isso também inclui questões que eu me pergunto seriamente se deveriam tentar ser transformadas em tópicos de polêmica, como eu estou vendo acontecer em algumas bolhas. Talvez haja um pouco de desabafo ao longo desse texto, mas ao mesmo tempo, isso não estará aqui por motivos banais - e sim para exaltar o quanto (e porque) isso continua tão conectado ao cânone dos quadrinhos quando falamos de John Stewart.
Tudo começa em 1986, quando seu pai, John Sr., é visitado por um anel como um possível candidato. Ele, porém, demonstra medo, e logo é deixado para trás por aquele que virá a ser o de Hal Jordan. Lembrem-se que Jordan (que inclusive inicialmente usava de fato uma máscara para esconder sua identidade civil) se tornou uma verdadeira celebridade como super-herói, com sua origem como tal logo se tornando pública e televisionada - e por isso mesmo nem é preciso muito para que alguém ligue os pontos envolvendo sua própria experiência, e a oportunidade que perdeu. John Sr. passa a exibir comportamentos inquietos e até perigosos, já que nem mesmo sua esposa Bernadette acredita nele. Tudo muda, porém, quando ela é visitada pela mesma Guardiã que um dia entrevistará John para o papel de aprendiz de Hal.
Ela pede desculpas pelas “imperfeições” do sistema de seleção (até então, a Tropa nunca havia tido um Lanterna humano) e para compensar o trauma causado ao pai, a mesma oferece um diamante. A total desconexão dos aliens com as questões terrenas — como o racismo — fica clara quando a mãe de John diz ter tentado vender a pedra e sido acusada de roubo. Existe, dessa forma, a exploração de uma idéia interessante: os Guardiões podem ser extremamente poderosos, mas isso não significa necessariamente que compreendem (em muitos sentidos) os seres que estão tentando recrutar.
Durante a conversa, porém, a Guardiã sente algo especial no ainda bebê John, e propõe um acordo: se a família criar aquela criança para ser o Lanterna Verde perfeito, ela pode concretizar o destino que o pai perdeu. E é a partir daqui que esse episódio se torna de longe o mais dramático e denso da temporada até aqui.
John Sr. (e especialmente Bernadette) decidem dedicar toda a vida de seu filho mais novo à missão de, um dia, entrar na Tropa dos Lanternas Verdes. Isso significa transformar sua infância praticamente em um enorme treinamento, como John virando um alvo humano (com o já conhecido tiro ao alvo em uma maçã presente por cima de sua cabeça) e crescendo emocionalmente distante dos irmãos, sendo tratado mais como um soldado do que como uma criança - e eventualmente entregando até mesmo uma carreira de honra no serviço militar para acobertar um envolvimento (não planejado) de um certo alguém na captura/morte de um criminoso russo. John passou anos sem enxergar nada além da missão: ser um Lanterna Verde. Toda a sua vida – observada pelos Guardiões através de pássaros que reportavam seus feitos e erros para os alienígenas – o levou até a sala metafísica onde a Guardiã o questiona e, eventualmente, o aprova. É no mínimo difícil que, ao assistir, você não fique no mínimo incomodado, revoltado, ou simplesmente chocado em algum desses momentos.
O fato de, até 1986, nunca ter havido um Lanterna humano talvez de fato tenha mais impacto para essas consequências quando paramos para pensar melhor. O episódio questiona o quanto os Guardiões realmente entendem a humanidade e suas questões, cicatrizes e, usando um termo pertinente, tabus. Seja incluída a questão racial (ou mesmo sem essa perspectiva) quantas pessoas ao verem simplesmente uma bolha verde alienígena invadindo o quarto de seu filho recém-nascido e perguntando a elas se tem medo, não diriam o óbvio que, sim, elas tem? E como essas mesmas pessoas reagiriam depois ao saber que aquilo foi um "teste" para algo que poderia mudar a vida e realidade de suas famílias da noite pro dia? Lembrem-se, estamos falando aqui de um casal com 3 crianças. Os Guardiões não apenas desestabilizaram o pai, mas a família inteira ao, ainda, oferecer uma "segunda chance" - essa que acaba se tornando praticamente uma obsessão auto imposta ao filho mais novo para compensar um "erro" cometido por seu pai.
É um tropo clássico que a origem de um herói possa envolver uma tragédia em algum nível, normalmente envolvendo uma perda familiar. A de John Stewart não envolve exatamente isso. Ele não perdeu seus pais, ou muito menos os mesmos deixaram de serem figuras que lhe eram importantes - mas sim simplesmente o livre arbítrio do que ele deveria (ou poderia) ser. O núcleo de John demonstra que seu caminho foi sempre trilhado em volta de uma frustração familiar. Como resultado, o menino sofre abusos disfarçados de treinamento, como ser forçado a andar sozinho por uma vizinhança violenta, apenas para chegar em casa com seu tom firme e, depois de um novo teste, se dirigir ao quarto para chorar, provando que aquilo o abala sim. John não é de aço, ou muito menos apático - ele apenas se forçou a conter seus próprios sentimentos porque acreditou que isso o tornaria o Lanterna Verde perfeito.
Até seus próprios aniversários passam a girar em torno do mesmo objetivo: ele ganha um uniforme do Lanterna Verde de presente. No episódio anterior, ao tentar voar, John manifestou um pássaro senciente com o anel (e aqui vemos que ele tem de fato alguma relação com pássaros) com seu bolo de aniversário tendo um desenhado no topo, ou mesmo seu caderno de desenhos estando sempre lotado de rascunhos de aves. John cresce achando tudo isso normal, fadado a realizar um sonho que nunca foi seu, tendo como única missão de vida se tornar um Lanterna Verde. E a série não tenta esconder essa contradição entre o que seria destino, e onde começa o que foi auto imposto.
Existe uma pergunta extremamente incômoda no centro de tudo isso: John sempre teria sido um grande Lanterna Verde, ou seus pais transformaram-no naquilo? Essa é uma pergunta que, talvez, seja apenas impossível de responder - e é justamente por isso que funciona. Existe, inclusive, um paralelo bastante evidente com histórias reais de pais que transformaram um filho em um projeto pessoal, principalmente quando existe um “escolhido” dentro de uma família numerosa. O exemplo de Joe Jackson e Michael Jackson é particularmente fácil de enxergar aqui: o filho mais novo transformado em um projeto, a cobrança constante, a obsessão pela perfeição e a ideia de que qualquer erro precisa ser corrigido imediatamente. A crueldade do processo é evidente, mas que segue acompanhada de uma pergunta ainda mais desconfortável: e se parte daquilo realmente tivesse produzido o resultado esperado?
Se John não tivesse passado por tudo isso, ele seria o mesmo homem? O talento dele já estava lá? Ou seus pais realmente criaram aquilo que os Guardiões acabariam procurando? Como dito, talvez não exista uma resposta. E o mais perturbador é que o próprio John parece acreditar que tudo valeu a pena, já que quando questionado pela Guardiã, ele responde com uma frieza quase assustadora que sim. Valeu a pena, para que ele conseguisse assumir o anel. A ironia é que, mesmo depois de todo esse treinamento, John passa décadas sendo ignorado pelos Guardiões, e só entra no radar da Tropa quando a crescente rebeldia de Hal Jordan e sua relação com Sinestro fazem com que os alienígenas decidam que precisam procurar outra alternativa. E isso apenas reforça uma ligação entre os dois que existe muito antes de eles sequer se conhecerem pessoalmente, e que ganha no episódio um contorno ainda maior durante uma missão de John no exército em uma mansão isolada, para dar cabo de um criminoso a mando do governo americano.
Jon salta de paraquedas em condições adversas, sofre um ferimento no torso causado por um galho e, ainda assim, continua. Depois passa 9 meses escondido no alto de uma colina, lidando com fome e cansaço. Finalmente, o alvo aparece, John prepara o disparo…mas então, Hal Jordan cai do céu, cria uma barreira em torno do criminoso, destrói a mansão e leva o homem sob custódia. Apesar de toda a dedicação, John falhou em sua missão e, como era algo secreto — que jamais deveria revelar o envolvimento do exército norte-americano —, ele aceita ser considerado desonrado e suspenso dos fuzileiros. Sim, por culpa de Jordan, John foi expulso do exército, em mais uma forma que Hal acabou arruinando indiretamente sua vida - mesmo sem obviamente com essa intenção, e muito antes de eles realmente se conhecerem.
Depois de perder a carreira militar, John finalmente encontra uma oportunidade de fazer algo que realmente queria: arquitetura. Sua mãe o matricula na faculdade de artes, lembrando que aquele era o verdadeiro interesse do filho, e aqui existe outro detalhe fundamental para o personagem, e que eu até já mencionei antes. Nos quadrinhos, John Stewart também é arquiteto, e isso não é simplesmente uma profissão colocada na ficha do personagem. É parte da sua identidade e, neste episódio, ganha uma função narrativa muito importante.
Um professor percebe a precisão dos desenhos de John, especialmente um retrato do relógio de seu pai, e então tira um anel da Tropa do bolso, pedindo que John recrie o objeto. Ele consegue, e então o professor revela sua verdadeira identidade (um Guardião) e abre um portal - a entrevista começa. A mensagem é simples: ser um Lanterna Verde não depende apenas de coragem, mas também de imaginação.
Após a entrevista, John retorna para casa e encontra Hal conversando com seus pais (a recepção de John Sr. é surpreendentemente amigável) enquanto o mesmo revela que vai treiná-lo como recruta. Do lado de fora, no entanto, vemos a dinâmica que já havia sido estabelecida: se depender de Jordan, John só recebe o anel por cima de seu cadáver, já que ele sabe muito bem o que isso significa.
Apesar de tudo isso, John nunca esconde certa admiração por ele (lembrem-se, em 2026, naquele gancho) é possível vê-lo chorando, e ele até mesmo o defende durante a entrevista, argumentando que Hal estava apenas cumprindo ordens - mesmo depois descobrindo que a história não era exatamente essa. Ou ainda no 2° episódio, quando ainda prefere jogar limpo e revelar a Hal sobre Antaan e seu grupo, ou mesmo sobre o Caçador Cósmico. Mesmo que haja, sim, aquele momento de frustração (com direito até a um "Vai se F#der, Hal Jordan") John nunca realmente culpa Hal pelo que teve ou deixou de ter em sua vida - o que só prova que sua Força de Vontade sempre foi maior do que qualquer rancor.
Esse com certeza deve ser o texto mais longo que estou tendo de fazer ligado a série porque, por mais que eu possa não ter um alcance de certos lugares muito maiores, sinto que eu tenho o dever de conscientizar o meu público (e isso não inclui apenas e simplesmente quem comenta aqui, mas também quem eu sei que apenas acompanha as notícias e afins, como ocorre em qualquer local do tipo) que a idéia de uma certa narrativa online que veio com esse episódio, simplesmente não existe. Não existe algo, ou alguém, sendo invalidado aqui. Não existe uma "explicação verdadeira" de porque as coisas foram como tiveram que ser para John e Hal. Não existe alguma questão aqui, mesmo que adaptada para a própria narrativa da série, que já não tenha sido explorada nos próprios quadrinhos. A própria rivalidade entre Hal e John na série, não é muito diferente da que foi criada entre o primeiro e Guy Gardner nas HQs (assim como Hal, Guy também era alguém digno de portar o anel) mas Hal simplesmente estava mais perto da nave de Abin Sur, e acabou ficando com tal poder mais cedo.
A abordagem de questões raciais sempre foi um pilar fundamental da identidade de John Stewart como personagem. Desde que foi criado em 1971 (em Green Lantern #87) por Denny O'Neal & Neal Adams, John foi retratado como um homem negro consciente das realidades socioeconômicas e raciais dos Estados Unidos, e com uma personalidade firme e naturalmente desconfiada da autoridade tradicional, representada inicialmente por Hal Jordan. Ao contrário de outros heróis da Era de Bronze, Stewart também questionava ordens e enxergava o mundo a partir de sua vivência como um homem negro em uma sociedade desigual. Alguém que observava a autoridade, através da experiência de alguém que sabia que as instituições americanas não tratavam todas as pessoas da mesma maneira.
John, na verdade, até mesmo chegou a se recusar de usar a tradicional máscara verde, simbolizando que não escondia quem era e confrontando o próprio status quo da Tropa dos Lanternas Verdes, com as tramas abordando frequentemente temas como o racismo sistêmico, o preconceito institucional e a forma como a justiça atuava de maneira diferente perante pessoas negras, consolidando a figura de Stewart como um dos primeiros heróis afro-americanos de grande relevância na cultura pop. Então sim, Lanterna Verde e racismo são duas coisas diretamente ligadas nessas horas - e quem tenta vender outra narrativa, é simplesmente um idiota que quer por exemplo, que você clique no vídeo clickbait dele no YouTube, e lhe dê seus tão cobiçados 5 minutos de fama. Você que ainda tá lendo isso (porque eu sei que vai ficar longo, porque é necessário) eu sei que você é melhor que isso.
O já mencionado (e evidente) desconhecimento da cultura humana por parte dos Guardiões, talvez realmente (e simplesmente de forma não intencional) transformou um "erro" perante os olhos dos pais de John e a questão entre ele e Hal em um suposto debate de privilégio racial. Nessa visão, Hal seria o homem branco privilegiado que pôde dizer que não tinha medo, enquanto John seria o verdadeiro merecedor por ter treinado a vida toda. O que existe é uma família que interpretou um acontecimento alienígena através das próprias experiências, e a própria Bernadette faz exatamente isso. Quando a mãe de John finalmente admite que se sente mal por tudo que fez, ela ainda tenta se "justificar" dizendo que a própria vida a forçou a "proteger" o filho, tornando-o alguém melhor e mais rígido, e inclusive usando dessa narrativa que, veja bem, não é um fato, tão pouco referenciada como um fato, uma realidade...porque nada mais é, do que uma visão errônea, mas que ainda é criada a partir da realidade vivida de uma pessoa. Um pensamento, que mais uma vez, não passa da consequência de uma mágoa, e que acaba servindo para alimentar uma paranoia.
O 3° episódio de Lanternas não invalida a coragem de Hal, não estabelece que os Guardiões são racistas e tampouco afirma que a mãe de John está certa sobre tudo que diz ao filho. Sua fala não explica por que Hal recebeu o anel - mas sem dúvida explica por que John foi criado daquela maneira. Entender essa diferença não deveria ser uma questão complexa, mas sim o ponto de partida para qualquer discussão que envolva esse episódio e a própria série a partir desse conhecimento. E ah, acho bom lembrar, os próprios envolvidos na série já confirmaram que também haverá um episódio focado na origem do Hal - mas isso certamente você não viu sendo tão discutido nos últimos dias, não é?
Dizer que não tem medo é apresentado como um pré-requisito para entrar na Tropa dos Lanternas Verdes, mas a série deixa cada vez mais claro que isso não significa literalmente não sentir medo. Sentir medo é uma característica básica de qualquer ser vivo - e a diferença está mesmo no que fazemos quando o sentimos. Tanto quanto na própria vida real, o diferencial de um Lanterna Verde nesses momentos não é negar o medo, mas agir apesar dele. De fato, uma questão de Força de Vontade.
John Sr. respondeu ao anel que sim, ele tinha medo. Medo porque havia algo (ou alguém) a perder. Hal, respondeu que não tinha medo e recebeu o anel - mas porque ele já tinha perdido tudo, com a morte do pai. Stewart e Jordan se tornaram homens moldados por experiências completamente diferentes, que os ensinaram a seu próprio modo a como entender coragem e medo. E raça, gênero e classe social definitivamente podem se encaixar como parte dessas trajetórias. Afinal, assim como coragem e medo, Hal Jordan e John Stewart também aprenderam de formas diferentes o que significa sucesso.
A coragem de Jordan vem de sua imprudência. A coragem de John vem de saber exatamente quais são as consequências, e ainda assim agir. Duas formas distintas, mas justamente por isso, complementares sobre o que é não ter medo. E talvez não haja um núcleo do universo DC que mais exalte isso do que justamente aquele envolvendo uma polícia intergaláctica que usa anéis mágicos, e capaz de aderir aos mais curiosos e diversos membros, de mundos completamente distintos - de um literal planeta, a um esquilo alienígena. De uma latina como Jessica Cruz, a Alan Scott (o primeiro Lanterna Verde da história) reintroduzido pela DC Comics em 2012 como um homem homossexual. Quer dizer, até o idiota do Guy Gardner! E ainda assim, todos podem representar a mesma Força de Vontade.
Enfim. John nasceu em 1986, o mesmo ano em que Hal recebeu seu anel. Em 2016, aos 30 anos, estava envolvido na investigação de Rushville ao lado de Jordan, durante seus primeiros meses de treinamento. Contudo, já vimos que em 2026 (aos 40 anos) John ainda não se tornou oficialmente um Lanterna Verde. Ele passou a vida inteira aprendendo a desejar aquele posto, foi criado para isso, treinado para isso, moldado para isso. Mas ainda não chegou ao momento em que realmente poderá escolhê-lo. E essa talvez seja a grande ironia da história.
Durante toda a vida, John foi ensinado que seu destino era se tornar um Lanterna. Agora, pela primeira vez, a decisão precisa ser dele. E saber quando esse momento finalmente chegará é uma das perguntas mais relevantes que a série deixa para os próximos episódios. Porque no fim das contas, tornar-se um Lanterna Verde nunca deveria ser sobre aquilo que os outros decidiram que John seria. Mas sim, sobre aquilo que ele realmente escolherá ser.
Por: Riptor














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