sábado, 26 de setembro de 2026

What We Leave Behind

 

 

O Post a Seguir contém SPOILERS, então se Ainda Não Viu, Continue por sua Conta & Risco  



Com o caos principal em Rushville encerrado, chega finalmente a hora de 'Lanternas' voltar sua atenção para a linha temporal de 2026. E, junto com o presente, retorna também a grande pergunta que a série plantou ainda no final de seu piloto: afinal, quem matou Hal? Para responder isso, John terá de revisitar acontecimentos que passou anos tentando deixar para trás - e principalmente, encarar as consequências das escolhas que fez em 2016.



Depois de recusar o anel, John seguiu em frente — ou pelo menos tentou. Ele finalmente abraçou a carreira de arquiteto e construiu uma trajetória na área de segurança, projetando e vendendo bunkers e casas do pânico para bilionários e celebridades preocupados com as novas "falhas de segurança" que passaram a fazer parte do cotidiano daquele universo. Logo no início, vemos sendo apresentado seu projeto mais ambicioso: uma enorme franquia de condomínios subterrâneos, cujo custo estimado chega a impressionantes US$ 30 bilhões e que dependeria de financiamento do governo. O homem que foi criado acreditando que seu destino era proteger o mundo com um anel, passou a ganhar dinheiro construindo lugares para pessoas se esconderem dele.

E olhando para sua vida pessoal, fica ainda mais evidente o quanto John tentou se afastar de tudo aquilo. Depois de Rushville, ele rompeu relações com os pais e se aproximou dos irmãos (Marcus virou seu sócio na empresa de arquitetura) enquanto Aaron é um rapper cuja carreira é financiada pelos próprios irmãos. A única outra pessoa da família com quem John ainda mantém algum contato é Bernadette — e mesmo assim, de maneira bastante limitada. John Sr., por sua vez, está em um asilo e parece dar bastante trabalho. Marcus & Aaron também continuam chamando John de "Escolhido", algo que obviamente o incomoda. Afinal, essa palavra está diretamente ligada a uma infância em que outras pessoas decidiram o que ele deveria ser, antes mesmo que ele tivesse a oportunidade de descobrir isso sozinho. De toda forma, John realmente parece ter encerrado aquele capítulo. Ou pelo menos era isso que ele queria acreditar.



Tudo muda quando Bernadette liga para John com uma informação bastante peculiar: Hal Jordan quer "pedir desculpas". A notícia já seria estranha por si só, mas John ainda descobre que sua mãe teria se tornado amiga de Hal (ou ao menos é isso que ela diz) antes do mesmo ir até Rushville para descobrir o que está acontecendo, encontrando seu antigo mentor agora vivendo na cidade. Depois de tudo que aconteceu, Hal acabou preso e, após ser libertado, decidiu permanecer justamente no lugar onde sua vida praticamente desmoronou.

Mas aí que vem a questão: Hal afirma que nunca disse a Bernadette que queria se desculpar, já que considera que deixou as coisas quites com John quando “assumiu a culpa” pela destruição causada em 2016. É nesse momento que vemos que foi o próprio John quem deu uma no nariz de Jordan quando vimos seu corpo congelado, naturalmente antes de morrer ou de John ter sido chamado para lá por Kerry. Algo que ele naturalmente não revela à xerife, pois além de evitar ser um suspeito da morte, Stewart está obedecendo a um pedido sério do próprio Hal para não contar a ninguém que eles estiveram juntos na cafeteria. Ou seja, desde o início da temporada, estamos vendo uma investigação conduzida por alguém que possui informações que não pode simplesmente compartilhar.



Nesse intervalo de tempo, descobrimos também que Kerry terminou com William Jr., abrindo espaço para que sua relação com Hal evoluísse, já que ele começou um relacionamento com a xerife em segredo. É fácil entender o motivo, já que mais ninguém na cidade (por motivos bastante claros) tem exatamente boas lembranças do antigo Lanterna Verde, e Kerry também não quer que Noah descubra de imediato que está se relacionando com um dos homens associados à tragédia que matou sua avó. Segundo ela, Hal voltou dizendo que queria se redimir, chegando a bater de porta em porta para perguntar aos moradores o que poderia fazer para ajudar a cidade. 


Depois de tudo que vimos em 2016, é perfeitamente possível acreditar que exista realmente uma parte de sinceridade nisso - mas talvez não seja necessariamente a história inteira, e John parece perceber isso. Hal pode ter voltado para Rushville por arrependimento, por Kerry, e até porque precisava de algum lugar para reconstruir a própria vida. Mas depois de tudo que já vimos sobre o personagem até aqui, pode muito ter existido outro motivo - e o episódio claramente quer que continuemos desconfiando.



Seguindo essa linha de raciocínio, no episódio anterior Zoe havia revelado que ensinou táticas de guerra a Noah quando ele era criança - e agora descobrimos que ele sempre soube do relacionamento entre sua mãe e Hal, encarando a situação com uma tranquilidade enorme, enquanto parece admirar John. Lembrem-se, estamos falando de uma cidade onde existe uma razão bastante concreta para as pessoas odiarem Lanternas. Noah pode até não ter assassinado Hal, mas a série está fazendo questão de lembrar que ele pode muito bem saber mais do que seria esperado de alguém de sua idade - e ele não é o único personagem ligado ao passado de John que pode ter informações importantes.


Se apresentando como Maggie, tal moça é a única testemunha conhecida de que John esteve com Hal na cafeteria, onde ela mais tarde tenta chantageá-lo, exigindo dinheiro para não contar a Kerry que ele esteve lá. A série parece sugerir que ela é a mesma garotinha que recebeu um relógio de John no episódio anterior, mas nada disso parece colocado ali por acaso.

Enfim, a investigação propriamente dita começa quando John & Kerry vão ao necrotério para descobrir mais sobre a morte de Hal. O resultado da autópsia é direto: um tiro de 9 mm na cabeça, mas a posição do ferimento indica que Hal não foi simplesmente surpreendido. E então aparece a verdadeira pista: nos bolsos do cadáver existe uma chave de depósito com um pequeno pássaro no chaveiro. Para qualquer outra pessoa, poderia ser apenas um detalhe, mas para John, não. Hal sabia da relação de John com pássaros, portanto, aquele objeto dificilmente foi colocado ali por acaso. Tal chave, por sua vez, leva a um antigo depósito de Jordan, onde existe uma caixa misteriosa que só pode ser aberta pela voz dele.



A primeira tentativa da dupla é utilizar uma gravação de áudio do mesmo. Não funciona, e agora existe apenas mais uma tentativa. É justamente aqui, que John decide abandonar a ideia de simplesmente seguir o procedimento oficial e começa a elaborar seu próprio plano. No necrotério, a decisão inicial foi cremar o corpo de Hal e manter tudo o mais discreto possível, mas John pensa diferente: ele quer que Hal tenha um funeral digno. E, para isso, decide chamar Guy Gardner. O problema é que John utiliza seu "Lanterna-Sinal", causando uma confusão considerável em Rushville e terminando preso na delegacia. É uma entrada bastante apropriada para Guy.

Quando Guy chega à cidade, John faz um pedido bastante específico: quer enterrar Hal usando seu uniforme e o anel, como se estivesse realizando um funeral militar. Gardner inicialmente recusa (já que os Guardiões certamente não ficariam satisfeitos se descobrissem aquilo) mas acaba cedendo, em parte porque reconhece que sua própria posição só existe porque John recusou o anel. Porém, Stewart está escondendo uma segunda intenção: ele pretende desenterrar Hal depois, recuperar o anel e utilizá-lo para projetar o holograma do antigo mentor. Dessa forma, poderá finalmente abrir a caixa do depósito. 



Guy, inclusive (no que acaba sendo uma previsão certeira) até insinua que John poderia tentar algo assim, e deixa um aviso bastante claro que o uniforme é pequeno e o anel "tá morto". Aparentemente, os Guardiões encontraram algum problema no artefato de Hal e decidiram aposentá-lo, mantendo-o em Oa, enquanto Guy recebeu um anel novo. Sem uma bateria para recarregá-lo, aquele anel seria apenas um objeto (e da última vez que o vimos) ele estava completamente descarregado. Então, em teoria, não haveria problema algum em enterrá-lo junto de Hal. Em teoria.


A presença de Guy, vale dizer, não serve apenas para movimentar a investigação. Ela também estabelece uma diferença muito clara entre ele, Hal e John, onde o mesmo realmente acredita em ser um herói - mas, para ele, ser um herói também envolve saber administrar a própria imagem. Depois do caso de Rushville, o nome dos Lanternas Verdes ficou associado a uma verdadeira crise de reputação (e a própria participação de Guy na Gangue da Justiça de Maxwell Lord) parece estar ligada justamente a essa tentativa de reconstruir a imagem da "marca". Por isso, Guy evita situações que possam prejudicá-lo publicamente.



É também por esse motivo que ele se recusa a ajudar John diretamente na investigação da morte de Hal, mas mesmo assim cumpre sua parte no funeral. E, no meio dessa conversa, ainda solta outra informação muito importante: alguém libertou Sinestro de sua prisão. O principal suspeito naturalmente seria Hal, mas existe uma ótima questão contra isso: estando sem o anel, ele estava preso na Terra....estava?

A cena do funeral também adiciona mais um elemento importante envolvendo a história dessa versão de Jordan: uma das quatro pessoas que compareceram (além de John, Kerry e Guy) é Carol Ferris, que inclusive traz consigo um discurso fúnebre que o próprio Hal havia escrito quando era jovem, enquanto revela a John que os dois tiveram um relacionamento.



Para quem conhece a história dos quadrinhos, isso não é novidade. Hal e Carol sempre tiveram uma relação marcada por sentimentos genuínos, mas também por muitas idas e vindas. Hal se afastava durante longos períodos por causa de suas responsabilidades como Lanterna Verde, desaparecia no espaço e, quando voltava, muitas vezes descobria que Carol havia seguido sua própria vida. Uma relação complicada justamente porque os dois podiam se amar e, ainda assim, nunca conseguir construir uma vida normal juntos. Não à toa, o diálogo dito por Carol durante sua breve participação acaba funcionando tão bem: "Eu aposto que ele gostava de você, John. E aposto que ele nunca disse". 

A cena de John lendo o discurso, inclusive, é a minha favorita do episódio - pois mesmo sem o veterano estando presente, é como se ele voltasse à tela por alguns minutos. Dá para sentir o humor, a irreverência e a personalidade de Jordan através daquelas palavras, e até mesmo John chega a sorrir em um breve momento. Assim como os presentes naquele momento, é possível igualmente sorrir e, ao mesmo tempo, também se sentir um pouco triste com um texto que, sem dúvidas, tem a cara de Hal Jordan.


A série mais uma vez exalta que, apesar de tudo que aconteceu, fica cada vez mais difícil enxergar Hal apenas como o homem amargurado e humoradamente cínico que conhecemos em seu início. Hal tinha defeitos (tomou certas decisões ruins) e pode ter sido sim um péssimo exemplo em determinados momentos. Mas nunca deixou de existir nele uma vontade genuína de ser (e continuar sendo) um bom homem.

Mas enfim. John consegue executar seu plano de desenterrar Hal para pegar o anel, mas ainda precisa lidar com a questão de como reativá-lo sem a bateria. Quer dizer, "quase" ainda precisa (afinal, o próprio Hal ensinou a John, ainda lá no 2° episódio) uma "gambiarra" para fazer o anel “pegar no tranco“: basta dar uma porrada com a joia em algo sólido, para que a carga suba para 5%. E é assim que o episódio se encerra, enquanto o holograma do Hal de 2006 surge e se depara com o próprio corpo no buraco aberto por John. Nem preciso dizer, que ele não parece muito feliz ao saber da "novidade".



No fim das contas, o 6° episódio da série nos relembra que nem sempre o passado pode ficar realmente no passado - e como aquilo que os envolvidos em Rushville tentaram enterrar continua voltando à superfície. John passou dez anos tentando construir uma vida longe de qualquer coisa ligada aos Lanternas Verdes, enquanto Hal tentou transformar aquela pacata cidade em uma espécie de penitência - e mesmo assim, tudo continua conectado. Pois nem sempre o passado é sobre aquilo que deixamos para trás quando seguimos em frente, mas também sobre aquilo que permanece esperando por nós quando acreditamos que finalmente conseguimos escapar dele.

John pode ter recusado o anel, mas essa história não o recusou. Mais uma vez, o artefato está em sua posse - e agora, só nos resta descobrir o que ele pretende fazer com ele.

Por: Riptor

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