sábado, 12 de setembro de 2026

The Price of Being Human



 

O Post a Seguir contém SPOILERS, então se ainda Não Viu, Continue por sua Conta & Risco 


Depois de voltarmos no tempo para acompanhar a origem de John no capítulo anterior, é o momento de 'Lanternas' retomar à investigação de Rushville. Conforme as peças começam a se encaixar, era apenas uma questão de tempo até que a relação entre Hal e seu recruta chegasse ao limite - e o 4° episódio é justamente sobre isso. Mais do que avançar o mistério envolvendo o Caçador Cósmico, os protagonistas ficam diante de figuras que sabem exatamente onde apertar para fazê-los questionar um ao outro. Aquilo que aparentemente parece uma oferta de ajuda, um conselho ou até mesmo uma demonstração de preocupação - mas a realidade é que nenhuma dessas conversas é realmente altruísta.


Tudo começa quando finalmente vemos a conclusão da conversa de Hal com Sinestro. E, como seria de esperar de alguém como ele, o antigo Lanterna Verde não entrega respostas fáceis. Sinestro conhece Hal há tempo suficiente para saber que não precisa convencê-lo de absolutamente nada: basta fazer a pergunta certa e deixar que Jordan faça o restante sozinho. Usando o medo como seu principal instrumento (como não poderia deixar de ser) ele consegue fazer Hal admitir algo que ele vinha evitando encarar: ele de fato tem medo de ser substituído por John. O curioso é como ele já sabe da existência de John Stewart, mesmo estando isolado e preso no meio do nada (e não só sabe) como também demonstra que não quer que aquele recruta se torne um Lanterna Verde, com sua primeira tentativa sendo direta: manipular Hal para que o mate.


Jordan, naturalmente, não aceita, mas Sinestro parte para uma alternativa muito mais inteligente: ele convence Hal a dar um falso voto de confiança ao parceiro. A ideia seria simples: fazer os Guardiões acreditarem que John sente medo, enquanto Hal entrega o Caçador Cósmico e recupera sua credibilidade perante a chefia da Tropa. É uma armadilha bastante evidente, e talvez justamente por isso funcione. Sinestro não está colocando uma dúvida completamente nova na cabeça de Hal - ele apenas está dando forma a uma insegurança que existia.


Até mesmo nos próprios quadrinhos, a relação entre Hal e Sinestro nunca funcionou apenas como uma simples história de herói contra vilão. Começou como uma relação de mentor e aprendiz, com Sinestro chegando a ocupar uma posição quase paterna na vida de Hal - mesmo que sua filosofia sempre tenha sido marcada por métodos autoritários, pragmatismo extremo e pela convicção de que a paz poderia ser alcançada através do controle e do medo. A própria conversa deste episódio toca diretamente nisso.

Sinestro praticamente diz a Hal que ele sempre foi exatamente quem é, e que sua ambição nunca foi um segredo. O próprio cavalo de Troia de Hal foi preferir não enxergar. E quem nunca fez algo parecido? Às vezes, a empatia nos faz tolerar sinais que, vistos de fora, parecem óbvios. Não porque sejamos incapazes de perceber o problema, mas porque admitir aquilo pode significar aceitar uma solução que não queremos aceitar. É por isso que uma das frases mais importantes da relação entre os dois continua tão adequada aqui, presente na despedida da fase de Geoff Johns à frente do personagem. Nela, Hal pergunta a Sinestro se eles chegaram a ser amigos de verdade. A resposta do mesmo é essa: 


“Essa é a tragédia de tudo isso, Jordan...Hal. Nós sempre seremos amigos". É esse tipo de relação que a série claramente também parece querer explorar entre eles. Sinestro conhece Hal melhor do que qualquer outra pessoa. E isso significa que ele também sabe exatamente onde machucá-lo.


Enquanto isso, John também recebe sua própria dose de manipulação. Ele é visitado pela Guardiã do Universo (oficialmente identificada como Lianna) que informa que Hal quebrou um voto ao visitar Sinestro. Consequentemente, John está autorizado a assumir o posto de Lanterna Verde, sobre uma condição: na próxima vez que Hal lhe entregar o anel durante o treinamento, John deverá recitar o juramento e tomar para si o manto. 

A reação de John é imediata. Por que os Guardiões não estão simplesmente deixando que a transição aconteça naturalmente? Por que precisam interferir? E, principalmente, por que a própria Lianna parece tão interessada em colocar John contra Hal? A conversa vai ficando cada vez mais agressiva, até que a Guardiã ameaça retirar a própria oportunidade de Stewart de se tornar um Lanterna. Esse é um dos primeiros momentos em que vemos John realmente perdendo a compostura, onde no meio da discussão, ele deixa sua posição perfeitamente clara: Hal está apenas “esquentando” o anel para ele. Ele passou a vida inteira acreditando que precisava conquistar aquele posto, e agora começa a acreditar que ele já é seu.


Voltando para a investigação, John conta a Kerry toda a verdade sobre o motivo de ainda estar em Rushville depois que Hal confirmou que Waylon era um alienígena. Ela descobre tudo: a existência do Caçador Cósmico, o prazo de 48 horas para entregá-lo e a ameaça de Nebraska ser transformada em pó caso o grupo de Antaan não consiga aquilo que procura. Com base nisso, ela decide ajudar e, com as informações que possuem, a conclusão parece quase inevitável: se existe um Caçador Cósmico escondido em Rushville, provavelmente ele está na propriedade dos Macon. O lugar, afinal, é protegido por uma quantidade absurda de armamentos — incluindo tecnologia capaz de neutralizar Lanternas. 

É aí que o episódio oferece um dos melhores exemplos de como John e Hal podem funcionar juntos quando conseguem deixar seus problemas pessoais de lado. Com o anel emprestado por Hal, John usa sua formação de arquiteto para projetar uma enorme perfuradora subterrânea, permitindo que os dois entrem no bunker sem serem detectados. John pensa, Hal executa, enquanto um  complementa o outro. Mesmo que, ironicamente, saibamos que já exista uma manipulação acontecendo por trás de tudo isso.


Ao chegarem ao rancho, John percebe que o celeiro é provavelmente o centro estrutural de todo o complexo, enquanto os dois encontram armas e equipamentos avançados demais para terem sido produzidos por humanos - até que Hal pisa em uma armadilha, na forma de um sensor de pressão que é ativado. John então tem uma solução ao criar um objeto com o mesmo peso de Hal para enganar o mecanismo, na forma de um kettlebell. O plano seria perfeito, exceto por um pequeno detalhe: Hal mentiu sobre o próprio peso. Os dois acabam capturados por Macon depois de serem neutralizados por armas que disparam uma espécie de escuridão, capaz de apagar a luz produzida pelos anéis.

E sim, vamos ser justos, as bizarrices começam a partir daqui. Macon os interroga completamente nu e, em determinado momento, ainda pede que John o desenhe. Não sei exatamente o que é mais preocupante nessa cena vindo desse maluco, mas pelo menos descobrimos que ele de fato está trabalhando com o Caçador Cósmico e pretende protegê-lo a qualquer custo, já que deve a própria vida a ele.


Depois de serem resgatados por Kerry, a dupla consegue uma nova pista, ainda que acompanhada de uma perda que parece definitiva. Naquela noite, Zoe aparece para John e os dois acabam se envolvendo — você entendeu. Mas John percebe que ela está escondendo alguma coisa, a confronta e pede que ela seja honesta. A resposta é que ele “jamais entenderia”. Pouco depois, a avó de Noah entra no veículo e começa a dirigir - antes de vermos um raio vermelho caindo do céu, explodindo a caminhonete. John assiste a tudo, antes de seu rosto voltar a ficar impassível.


Hal sai do quarto e pede apenas que ele indique a trajetória do disparo, parte para o espaço, e lá em cima encontra algo ainda pior: Rushville está cercada por satélites armados capazes de incinerar praticamente qualquer alvo, fazendo com que Jordan então crie um enorme domo verde ao redor para protegê-los de novos ataques. É a partir daqui que a origem do armamento também começa a aparecer: a tecnologia vem da Atlas Inc., empresa comandada por Hector Hammond — nome bastante conhecido por qualquer leitor familiarizado com o núcleo do Lanterna Verde. E, obviamente, isso não poderia ser apenas uma simples empresa.

A dupla chega a uma instalação ligada à Atlas e encontra algo bastante bizarro: um matadouro que parece ter sido construído com tecnologia extraterrestre. Os animais entram por um portal escuro e, em seguida, uma série de raios vermelhos os transforma instantaneamente em diferentes cortes de carne de uma forma grotesca, para se dizer o mínimo. Mas também existe um detalhe interessante nessa sequência: o reflexo da iluminação no teto, combinado com o portal negro no centro da sala, forma exatamente o símbolo da Tropa dos Lanternas Negros.

E aqui faço uma ressalva importante: isso não necessariamente confirma alguma coisa, mas considerando tudo que já foi dito sobre o papel da série dentro do primeiro grande arco do DCU, acho difícil simplesmente ignorar a possibilidade que isso não foi feito de propósito. Antes mesmo da estreia, a série foi apresentada como uma produção que teria ligação direta com o que deve ser a grande ameaça do chamado Capítulo 1 do DCU - e desde então, uma das teorias que mais ganhou força entre os fãs é justamente a de que a série pode vir a preparar o terreno para uma adaptação de A Noite Mais Densa. E para quem conhece a história, a presença de elementos associados aos Lanternas Negros seria obviamente muito mais do que uma simples referência.


A Noite Mais Densa é uma das sagas mais importantes da mitologia dos Lanternas Verdes, envolvendo a figura de Nekron, os anéis negros e a transformação de mortos em integrantes de uma força que representa a morte — colocando não apenas os Lanternas, mas praticamente todo o Universo DC diante de uma grande ameaça. Se a série realmente estiver plantando alguma coisa nesse sentido, este seria exatamente o tipo de detalhe que poderia passar despercebido agora e ganhar outro significado posteriormente. Talvez seja apenas coincidência, talvez não. Veremos.

Voltando a trama, é dentro dessa instalação que acontece a grande ruptura entre Hal e John. O inimigo revela que estava espionando os dois, e até mesmo ameaça utilizar os satélites contra a família de John, além de apresentar uma gravação. Nela, ouvimos justamente quando John afirma que pretende substituir Hal perante os Guardiões porque considera que o veterano não merece mais o anel. É o pior momento possível para apresentar aquela gravação, enquanto John entra em pânico ao imaginar seus pais sendo mortos.


Hal, porém, faz exatamente o contrário: diz que não se importa se a família de seu parceiro vive ou morre. A chantagem não funciona, e isso força o vilão a revelar a verdade: Hector Hammond nem sequer é seu verdadeiro sobrenome. Era apenas um engenheiro obrigado a representar aquela ameaça, e que afirma que Macon é o Caçador. John nesse momento finge acreditar, e Hal percebe.


Assim como seu momento de confrontar Lianna já demonstrou, John não é frio - apenas aprendeu a parecer frio. Ele passou boa parte da temporada até aqui sendo apresentado como alguém extremamente controlado e calculista, quase incapaz de demonstrar emoções - e é justamente aí que Hal interpreta a reação dele à morte de Zoe como prova disso. Ele não se abala, mesmo tendo tido alguma coisa com ela. Só que, quando seus pais foram ameaçados, John perde completamente o controle, porque no fim, existe uma diferença enorme entre não demonstrar sentimentos e não sentir. E John os sente, e muito. E como se não bastasse, o episódio ainda sugere que talvez ele já suspeitasse que Zoe pudesse estar envolvida nessa história como o real alvo de ambos, fazendo com que ele estivesse escondendo uma informação importante de Hal - que Zoe provavelmente não morreu, por ser um Caçador Cósmico. E isso certamente se torna a gota d'água para o veterano.

Hal já não queria treinar alguém que sabia que estava ali para substituí-lo. Então surge a gravação, John aparentemente afirmando que tomará o anel à força. E depois, a possibilidade de ele estar protegendo um Caçador Cósmico — uma ameaça capaz de colocar toda a Terra em risco. E, por cima de tudo isso, feito cobertura de bolo, a paranoia plantada por Sinestro. Hal chega à conclusão de que precisa deter John, enquanto vemos uma verdadeira repetição de uma ação do primeiro episódio.


Depois de contar ao parceiro aquilo que descobriu, Hal acelera o carro com John dentro com tudo em direção a um poste, e salta pela porta enquanto o veículo está em movimento. O carro bate - mas dessa vez, não existe anel para salvar ninguém. É sem dúvida uma maneira bastante impactante de encerrar o episódio, logo após vermos um vislumbre de como a dinâmica entre os dois poderia melhorar. Eles trabalharam juntos, trocaram informações, Hal chegou a dizer que perdoava John, e quando John afirma que devolveria o anel caso eles não tivessem sido capturados, Hal diz acreditar nele. Mas desde o começo, os dois já haviam chegado a uma conclusão.


Existe uma frase muito apropriada para histórias como essa: “Se você não tem dúvidas, é porque não está prestando atenção", e é exatamente o que o quarto episódio apresenta. Tanto Sinestro quanto Lianna não criam a desconfiança entre Hal & John - apenas encontram as rachaduras que já estavam ali e sabem exatamente como aumentá-las. Hal já tinha medo de ser substituído, e John já tinha uma enorme expectativa em relação ao próprio destino. Os dois já enxergavam a Tropa de maneiras diferentes, e os manipuladores simplesmente deram um último empurrão. A arma de alguém assim não é necessariamente mentir - é saber com quem está falando.


Hal está em um estágio diferente da vida, alguns passos à frente de John — não necessariamente porque seja melhor, mais inteligente ou mais correto, mas porque já enfrentou alguns dos dilemas que Stewart está começando a descobrir agora. Ele conhece os Guardiões, conhece a maneira como a Tropa funciona, e sabe que poder e autoridade podem se misturar até se tornarem quase indistinguíveis. E já aprendeu, provavelmente da pior maneira possível, que seguir uma ordem não significa necessariamente fazer a coisa certa.


John, por outro lado, ainda acredita nas regras, e foi criado para isso. Durante toda a infância, aprendeu que disciplina, obediência e controle eram as ferramentas necessárias para cumprir sua missão - mas agora começa a descobrir o outro lado disso. Quem simplesmente segue ordens sem questionar quem está se beneficiando delas, pode facilmente virar um peão. Hal já foi esse peão, e sabe exatamente como é ser manipulado. Por isso, até tenta ensinar John a olhar para além de situações que parecem preto no branco, algo que Stewart ainda terá de descobrir por conta própria.

Quando Hal revela que perdeu os pais, a série aproxima novamente as trajetórias dos dois sem cometer o erro de tratá-las como experiências iguais. Ambos foram moldados pela perda, carregam responsabilidades, e aprenderam a seguir em frente - mas chegaram a conclusões diferentes. John ainda encontra alguma segurança nas regras, enquanto Hal aprendeu a desconfiar de quem as escreve. Um precisa descobrir que nem toda ordem merece ser obedecida. O outro, talvez precise reaprender que ainda existem coisas pelas quais vale a pena lutar. E talvez isso explique por que os Guardiões desejam tanto substituir Hal: ele é alguém que já foi manipulado pelo sistema, alguém que conhece seus erros porque foi vítima deles — e também porque, em determinado momento, fez parte dele. E alguém que, agora, consegue reconhecer os métodos daqueles que não querem abrir mão do controle.


Existe ainda um pequebo diálogo que considero particularmente interessante. John pergunta por que ninguém da Tropa está ajudando Hal na investigação, e se ele ainda conversa com os outros Lanternas. Hal responde de maneira bastante simples: eles são alienígenas. Até cita Ch'p, o famoso Lanterna esquilo, e então se descreve como alguém solitário. Mas existe uma questão importante aqui.

Isso é verdade? Ou é apenas a maneira como Hal enxerga a própria situação? Sabemos que ele carrega um trauma enorme, e que Sinestro ainda exerce influência sobre sua cabeça. E sabemos que Hal tem problemas bastante claros com os Guardiões e com a própria Tropa. Minha leitura pessoal é que ele provavelmente se afastou dos outros Lanternas por conta própria depois de tudo que aconteceu com Sinestro, mesmo que eles estivessem dispostos a ajudá-lo. Talvez ele simplesmente não tenha conseguido aceitar essa ajuda.


Às vezes todos precisamos ficar sozinhos por algum tempo. O problema é quando esse “algum tempo” dura anos. E talvez Hal Jordan tenha ficado sozinho por tempo demais.


No fim das contas, o 4° episódio reforça que Hal e John não contam com suas diferenças simplesmente porque um quer o anel do outro. Ambos entram em conflito porque são dois homens tentando lidar com suas próprias inseguranças, traumas e expectativas enquanto forças externas sabem exatamente como explorar cada uma delas. John quer cumprir seu destino, enquanto Hal quer continuar tendo o direito de decidir o seu próprio. E ambos estão certos em alguns aspectos (e profundamente equivocados) em outros. É isso que torna a de fato ruptura de ambos mais humana, ao invés de simplesmente transformar um dos lados em um antagonista assumido.


A Força de Vontade nunca foi sobre não ter medo, e sim sobre o que fazemos depois que ele aparece. E neste momento, vemos que Hal e John estão com medo de coisas muito diferentes.


Por: Riptor

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