O Post a Seguir contém SPOILERS, então se ainda Não Viu, Continue por sua Conta & Risco
Se aproximando de seu derradeiro momento de finalmentes, o 7° episódio de 'Lanternas' reúne ainda mais revelações que constroem a base para a resolução do grande mistério da série - ao mesmo tempo que deixa claro que o mistério que ainda permanece nunca foi apenas descobrir quem matou Hal. A essa altura, várias peças parecem ter sido colocadas no tabuleiro há muito tempo, e tudo começa a apontar para uma forte conexão de Sinestro nisso. E talvez, seja justamente essa a melhor palavra para definir esse capítulo.
Tudo começa em 1975, onde Hal ainda é apenas um garoto jogando beisebol quando começa uma discussão porque não quer deixar o campo depois de ser substituído. O treinador chama seu pai, Martin Jordan, esperando que ele coloque o filho na linha - mas acontece exatamente o contrário: Martin defende Hal e afirma que, enquanto ele for o melhor jogador naquela posição, não deveria aceitar ser colocado de lado. O treinador reage e agride Martin, fazendo com que pai & filho saiam dessa situação apanhando, mas orgulhosos um do outro, destacando claramente como Hal realmente vê o pai como um herói.
Depois de livrar a cara do filho, Martin entrega a Hal uma chave e explica que aquilo fazia parte de uma tradição da família (o avô de Hal também havia deixado uma chave para Martin) que deveria ser usada para abrir um cofre caso ele não retornasse da guerra. Agora Martin estava fazendo exatamente a mesma coisa com o filho, em uma pequena passagem que conversa diretamente com o episódio anterior, visto que Hal também deixou uma chave para John. E, considerando tudo o que aconteceu entre os dois, fica difícil não interpretar aquilo como o próprio Hal de fato o reconhecendo como seu herdeiro. Ou se preferir, alguém de fato bom o suficiente para que ele finalmente aceite “passar a bola”.
Voltando para 2026, quando John desenterra Hal e conjura o holograma de seu antigo mentor, a primeira reação do mesmo é, naturalmente, descobrir que está morto, antes de começar a fazer perguntas. John, por sua vez, decide inventar uma história sobre o funeral, dizendo que foi uma grande cerimônia com a presença dos Guardiões e de toda a Tropa dos Lanternas Verdes - apenas para ser pego na mentira quando Hal pergunta se até Mogo compareceu, e John confirma, sendo que estamos falando de um Lanterna que é literalmente um planeta vivo. John então admite a verdade que já sabemos: ele precisa da voz do holograma para abrir o cofre ativado pela chave que Hal lhe deixou.
Já havíamos tido vislumbres disso em episódios anteriores, mas de fato o 'Halograma' é um pouco menos amargurado do que sua versão em 2026, mas isso não significa que ele esteja disposto a simplesmente colaborar logo de cara. Ele exige falar com Kerry primeiro, especialmente depois de descobrir que o Hal morto havia desenvolvido sentimentos por ela. Só que aquele não é exatamente um bom momento para procurar a xerife, visto que Noah havia prometido anunciar em qual universidade jogaria (sendo que no fim das contas) nem isso acontece.
John acaba levando o holograma até o ginásio da escola, e quando Kerry vê a imagem do homem que amava, fica completamente chocada. Hal começa a interrogá-la e, diante de algumas respostas a perguntas bastante pessoais, passa a acreditar que ela pode ter sido responsável por sua morte. Entre essas perguntas, existe uma particularmente interessante: o que ele costumava dizer sobre John? A resposta de Kerry utiliza uma comparação digna de futebol: alguém que começa toda temporada cheio de esperança, mas termina decepcionado. Uma maneira simples de mostrar algo que talvez tenha ficado escondido durante boa parte da história.
Hal era, no fundo, um fã e realmente torcia por John, mesmo quando estava frustrado, mesmo quando sentia medo de ser substituído. E mesmo quando seu relacionamento com o recruta parecia irreparável...no fundo, Hal queria que John conseguisse. Ele queria que seu aprendiz se tornasse o Lanterna Verde que acreditava que poderia ser.
Em meio aos eventos que levaram ao encontro com Kerry, John explica ao holograma tudo o que aconteceu em 2016, onde vemos que Hal já conhecia a existência dos Caçadores Cósmicos no passado - e explica por que ele ficou tão surpreso quando John mencionou essas criaturas no segundo episódio, já que elas deveriam estar extintas a esse nível. Seguindo essa linha, provavelmente foi o próprio Sinestro quem mencionou os Caçadores para Hal, onde fica ainda mais fácil entender por que Jordan procurou seu antigo mentor quando começou a perceber que havia algo errado em Rushville.
O “Halograma” finalmente ajuda John a abrir o cofre, onde encontram uma mochila com capa de chuva, barras de proteína, uma arma e equipamentos para caminhada - além de uma ponte de Einstein-Rosen. Ou, para quem não está interessado em transformar esse meu texto em uma aula de física, um buraco de minhoca - um dispositivo que permite criar um portal para outro ponto da galáxia. John e o holograma decidem então abrir o portal longe do depósito, já que Kerry sabe onde ele fica e ainda é considerada uma suspeita. A dupla escolhe a antiga caixa-d'água de Rushville, antes de acabarem em outro planeta. Ou para ser mais exato, um planeta morto.
John estranhamente reconhece aquele lugar, já que acaba se recordando da inserção de memórias que sofreu de Antaan, descobrindo que aquele era o seu planeta natal. Tal mundo foi destruído por uma arma criada por Zoe, capaz de liberar uma espécie de gás que provoca medo extremo e leva suas vítimas ao desespero. Como se não bastasse, a arma ainda está funcionando, com a chuva carregando a contaminação. Existe uma ilha mais adiante, e John precisa atravessar até ela usando um pequeno barco.
John o atravessa, mas não demora a ter alucinações provocadas pelo pavor e quase tira a própria vida sob o efeito do gás, antes de ser salvo pelo “Halograma”. No fim, todos aqueles equipamentos aparentemente aleatórios que estavam na mochila tinham uma função, principalmente a capa de chuva. Hal havia de fato preparado John para atravessar aquele lugar, mesmo sem saber se algum dia ele realmente teria a oportunidade de explicar por quê.
Tal travessia também acaba servindo para revelar uma das partes mais delicadas da história de Hal, revelada pelo próprio: Martin não morreu por causa de uma falha mecânica no avião, mas porque tirou a própria vida - e Hal sempre soube. Martin deixou a informação em uma mensagem guardada no cofre para o filho e, mesmo conhecendo a verdade, Hal preservou a imagem do pai durante toda a sua vida. Pouquíssimas pessoas sabiam do que realmente havia acontecido, com Kerry entre elas. Martin carregava uma dor profunda relacionada à própria história familiar e à perda de seu pai (o avô de Hal), mas nunca quis externar esse sofrimento. O que ele fez, porém, não deve ser tratado como uma espécie de gesto heroico ou muito menos como uma "solução" para o sofrimento. O episódio deixa claro que havia ali uma pessoa em extremo sofrimento, e que não conseguiu enxergar uma saída. E o que Hal fez com essa memória foi justamente carregar esse trauma durante décadas.
A família Jordan parece ter construído um legado em torno da ideia de suportar a dor em silêncio, sem demonstrar fraqueza, para poder continuar segurando - sem deixar a bola cair. Mas parece justo dizer que chegou um momento em que Hal começa a perceber que talvez tenha passado a vida inteira confundindo resistência com a obrigação de esconder tudo aquilo que sentia - e depois de refletir sobre as respostas de Kerry, o holograma começa a considerar a possibilidade de que ela realmente não tenha sido responsável por sua morte. Pois ele realmente se abriu com ela, quebrando assim sua promessa para, finalmente, desabafar com alguém. "Não sou destemido porque sou corajoso. Eu sou destemido porque estou quebrado".
Depois da travessia, John e o holograma chegam à ilha (onde encontram uma estrutura que parece uma espécie de forja, e a presença de um líquido amarelo) antes da aparição de uma figura encapuzada que aparece atrás deles e coloca uma faca no pescoço do holograma. John reage imediatamente, desativa a projeção e dá um soco no sujeito - apenas para descobrir que se trata de Sinestro. O que diabos esse cidadão está fazendo ali, em uma ilha de um planeta destruído pelo medo, com uma arma criada com esse mesmo objetivo? Bem...1+1? Afinal, é difícil acreditar que tudo isso seja coincidência. Mais importante ainda: quem colocou Sinestro naquele lugar? Hal descobriu a existência daquela arma? Foi ele quem manteve Sinestro preso ali? Como Sinestro sabia que a arma de Zoe existia? E o que o próprio Noah sabe sobre tudo isso, considerando que Zoe aparentemente o treinou e lhe ensinou muito mais do que deveria? São perguntas para o 8° (e último) episódio, mas já fica claro que Sinestro vai tentar convencer John de que estava ali "por acaso". Boa sorte pra ele.
Confesso que, diferentemente do que aconteceu quando fiz o post sobre o terceiro episódio, desta vez não tive contato involuntário com alguns tipos de comentários que, ainda assim, imagino que devem ter surgido em relação a esse aqui - e provavelmente a discussão passou pela relação entre Hal e seu pai, onde a série decidiu acrescentar uma camada particularmente sensível a uma relação que já era trágica nos quadrinhos. O próprio DCU, aliás, não apresentou muitas figuras paternas que possam ser consideradas realmente bons exemplos. Victor Frankenstein e sua relação bizarra com a Noiva. Jor-El (e o acréscimo de Lara Lor-Van) tendo uma motivação controversa de porque enviaram Clark para a Terra. Auggie Smith sendo simplesmente um supremacia branco. E claro, John Sr. (& Bernadette, ainda que essa assuma ainda mais a culpa no cartório) praticamente de acordo com a idéia de John odiá-los, desde que isso ajudasse a levá-lo a se tornar um Lanterna - uma forma totalmente mesquinha e irreal de "compensar" a oportunidade perdida pelo próprio patriarca. “Pode jogar fora. Não dá para ficar segurando para sempre, pois uma hora cansa“, diz o depressivo Martin Jordan para o filho na abertura do episódio. Do que o piloto de testes estava realmente falando para Hal, e claramente não é sobre uma bola de beisebol?
É um tipo de frase, ainda mais se vista de forma solta, que pode facilmente ser distorcida para que se diga na internet coisas que eu não vou tentar imaginar aqui, cujo propósito é apenas sustentar interpretações que não fazem justiça ao que o episódio realmente está tentando discutir. Eu não sou a melhor pessoa para falar sobre depressão, mas posso falar por mim quanto a já ter tido de lidar com crises ou dúvidas. Não porque elas tinham uma base, nem porque eu realmente acreditava nelas. Mas sim, porque é normal em algum momento termos essas dúvidas. Até onde eu posso ir no jogo, sem entregar a bola? Podemos questionar nossas escolhas, nossos limites e até onde conseguimos continuar carregando determinada responsabilidade. A pergunta não precisa ser simplesmente "quando devo desistir?", mas talvez justamente isso: até onde consigo continuar segurando isso sem me destruir? E essa diferença é fundamental.
A relação entre Hal & Martin sempre foi marcada nos quadrinhos por um misto de tragédia e idolatria, e a série preserva isso, ainda que adicionando uma camada dolorosa no processo. O episódio não transforma o destino de Martin em uma solução admirável, mas sim o quanto uma dor escondida ainda pode se perpetuar. Martin não foi um pai ruim, mas foi um homem cansado. E, mesmo carregando seus próprios problemas, ele continuou incentivando o filho enquanto acreditava que Hal ainda era o melhor homem para ocupar determinada posição. Ao mesmo tempo, tentou ensiná-lo que também existe um momento em que precisamos aceitar que não conseguimos segurar tudo para sempre, e que estava tudo bem "soltar a bola". O problema é que a própria "bola" de Martin era muito maior do que aquela usada no campo, e ele nunca conseguiu largar o peso que carregava de uma maneira saudável. Hal passou décadas tentando fazer exatamente o contrário: nunca deixar a bola cair, pois o Legado dos Jordan agora também era dele. E Hal agarrou-se a ele com todas as forças.
Aqui, o episódio também cria um paralelo interessante entre Hal & John. Os dois foram moldados por famílias completamente diferentes, com Hal crescendo acreditando que precisava continuar segurando, enquanto John cresceu acreditando que não tinha sequer o direito de demonstrar medo, pois carregava uma expectativa quase divina sobre aquilo que deveria ser. Mas John conseguiu fazer algo que Hal demorou muito mais para compreender: ele soube soltar a bola quando viu que aquilo (ser um Lanterna) lhe fazia mal, resultando em sua escolha de recusar o anel. Nada tem a ver com tirar a própria vida, mas sim em reconhecer que carregar o peso do mundo nas costas também é uma escolha — e que, em determinadas circunstâncias, abandonar esse peso pode ser necessário para continuar vivendo de outra maneira. Por isso mesmo, ao deixar a chave para John, o significado parece muito maior. Hal não estava apenas entregando acesso a um cofre, mas também confiando a John o Legado dos Jordan, pois obteve de fato a certeza de que ele também era capaz de suportar o fardo. A química entre os dois sempre foi o grande norte da série, e mais uma vez elas nos mostra o que os dois poderiam ter sempre sido em outras circunstâncias.
Ao contrário do Hal mais velho que nos foi apresentado no início, o holograma do mesmo não tenta ser orgulhoso demais para não elogiar, ensinar ou mesmo proteger John. Enquanto os dois investigam o cofre de Hal – onde não há uma declaração de suicídio, mas justamente a "porta" para o planeta de Antaan – aos poucos vemos as barreiras levantadas pelos acontecimentos em 2016 sumirem. Dessa vez, não há o temor da substituição, ou muito menos a pressão de assumir um posto: apenas dois homens andando em frente ombro a ombro, almejando as mesmas respostas. Talvez esse seja o verdadeiro legado de Hal para John: a capacidade de entender que força também significa saber quando você precisa parar de carregar algo sozinho.
O medo é um tema fundamental para qualquer história envolvendo o núcleo dos Lanternas, e aqui vemos que ele também existe na família Jordan, assim como nos Stewarts - em uma essência diferente, mas sendo medo do mesmo jeito. Quando se tornou um Lanterna Verde, Hal transformou o anel em sua "nova bola" - e assim como na infância, a entrada de John o fez estar diante da mesma situação: alguém tentando tirar dele aquilo que ele ainda acreditava lhe pertencer. A conversa com Martin termina com o mesmo sugerindo que Hal enfim solte a bola, que então a arremessa - apenas para vermos que a última cena é justamente o garoto indo atrás dela depois de enterrar seu pai. E é aqui que a série nos mostra porque, afinal, o anel escolheu Hal Jordan - e como não poderia ser surpresa para ninguém com mais de 2 neurônios (a não ser que você seja a Bernadette) nada tem haver com ele ser um branco "privilegiado".
O holograma de Hal pode ter dito a John que ele não se considerava realmente corajoso. Mas enquanto a depressão, ansiedade e traumas se acumulavam, deixando-o mais e mais amargurado com o tempo, nada mais nada menos que sua pura força de vontade é o que realmente o fez levantar a cabeça para continuar - e o anel, sua bola, a conexão com a vida que ele se recusou a perder. Não continuando, mas resistindo à apenas perpetuar o próprio legado trágico de sua família. A resistência de ir contra o seu maior medo. A resistência para se prender ao que realmente acreditava. Hal se agarrou a idéia de ser um Lanterna, da mesma forma que se agarrou à Rushville, mesmo com praticamente todos daquela cidade o odiando.
E talvez tenha sido justamente isso que o anel de Hal viu nele desde o começo: uma força de vontade quase instintiva, de simplesmente querer viver. A coragem de cada Lanterna, afinal, pode vir por caminhos opostos, mas que se encontram ao fim da mesma estrada. A de Hal, por se agarrar às coisas porque não quer perder aquilo que ainda lhe resta. A de John, por passar tanto tempo tentando controlar suas próprias emoções que chega ao ponto de simplesmente desligá-las. E até mesmo Guy, que transforma sua autoconfiança em uma espécie de armadura e segue adiante sem pensar demais no que pode acontecer depois. Nenhum deles é simplesmente "o corajoso", porque coragem não significa ausência de medo. A diferença está no que cada um decide fazer com ele.
No fim das contas, o 7° episódio de Lanternas faz mais do que só preparar as últimas pistas para o final da série, e sua analogia acaba sendo fácil de incorporar em seu verdadeiro ponto de discussão. Soltar a sua própria bola pode ser de fato um momento de alívio para um novo passo - ou uma mera tentação para não confrontar uma escolha ainda mais difícil que você sabe que terá de encarar. Não deve haver vergonha em admitir que determinado peso ficou grande demais, e muitos menos existe fraqueza em procurar ajuda. Não importa qual deve ser a resposta - apenas garanta que ela te levará de fato ao próximo capítulo, e não ao término da jornada. Porque se o for, acredite, não importa a sua realidade: tudo se resolve, e soltar a bola nunca deve ser uma opção para isso.
E isso certamente não é sobre segurar bolas de beisebol.
Por: Riptor









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