sábado, 22 de agosto de 2026

For Special Occasions

 

O Texto a Seguir contém SPOILERS, então se ainda Não Viu, Continue por sua Conta & Risco 


Depois de muita expectativa, 'Lanternas' finalmente chegou com um primeiro episódio que já deixa bastante coisa na mesa - estabelecendo não apenas suas bases para uma trama de mistérios e reviravoltas, como de elementos importantes sobre a construção da mitologia cósmica do DCU. Como sempre, vamos por partes! 


A história começa em 1996, mostrando John Stewart ainda jovem. É nesse período que ele assiste pela televisão a Hal Jordan revelar publicamente sua identidade, com a cena deixando claro que Hal já atua como Lanterna Verde há cerca de uma década, desde 1986. Durante a entrevista, ele aparece vestindo o uniforme da Tropa e conta um pouco de sua origem como um piloto de testes da Força Aérea, que perdeu o pai em um acidente aéreo. Segundo o próprio Hal, ele recebeu o anel porque, diante dele, afirmou que não tinha medo.


Enquanto a TV mostra a ascensão de Hal como herói, a série apresenta um contraste bastante interessante dentro da casa de John. O garoto parece ter crescido sob uma educação extremamente rígida, com seus irmãos ficando tensos quando percebem que o pai está chegando, especialmente porque ele claramente não simpatiza com o Lanterna Verde por algum motivo. John tenta desligar a televisão antes que seja descoberto, mas não consegue escapar, fazendo com que o pai então o leve para fora para repetir um exercício que aparentemente já fazia parte da rotina familiar: John precisa permanecer parado com uma maçã sobre a cabeça enquanto o pai aponta uma arma para ela. Os próprios buracos de bala espalhados pelo portão da garagem sugerem que aquilo não era exatamente uma brincadeira ocasional.

Antes de disparar, John Sr. pergunta ao filho se ele está com medo, e o garoto responde que não. O tiro acerta a maçã e, depois de toda a tensão, os dois simplesmente sorriem, com John sendo levado para dentro para comer um X-burger. É uma introdução simples, mas que já ajuda a entender de onde vem parte da personalidade de John e sua relação complicada com medo, disciplina e autoridade.


A história então avança para 2016. Por alguma razão, os Guardiões decidiram colocar John como reserva de Jordan - e a própria reação de Hal deixa claro que ele não está exatamente empolgado com a ideia. É justamente aí que começa uma das partes mais divertidas do episódio: a relação entre o veterano e o novato.

Hal passa boa parte do tempo provocando John e tentando descobrir até onde consegue levá-lo. John, por outro lado, responde com uma postura muito mais controlada e aparentemente 'fria'. Muito do humor do episódio reside nesse contraste evidente de personalidades, e que reforça a essência de todo grande buddy cop. E Kyle Chandler, em particular, parece ter se divertido bastante com isso.


Não vamos fingir demência: uma das principais preocupações que existiam antes da estreia da série era justamente a escolha de apresentar um Hal Jordan já em uma fase mais avançada de sua carreira. Afinal, depois de tanto tempo sem uma versão live-action realmente relevante do personagem, muita gente esperava vê-lo em outro momento de sua trajetória. O episódio, porém, rapidamente mostra que essa versão mais velha de Hal pode ser justamente um dos maiores acertos da série. Quando John vai encontrá-lo para começar o treinamento, Hal aparece atrasado, de ressaca e dirigindo um carro antigo. A explicação para a ressaca é praticamente a cara do personagem.


Na noite anterior, ele estava em um planeta do setor 2814 envolvido em uma guerra civil. Hal interferiu, ajudou a negociar um acordo de paz e resolveu parte do conflito usando seus poderes. Depois disso, decidiu comemorar bebendo com os habitantes locais. Ou sesa: impulsivo, confiante, corajoso, e extremamente teimoso. Isso é Hal Jordan no melhor sentido da palavra. Outro detalhe legal é o quanto a identidade pública de Hal alterou sua relação com a população da Terra: desde que revelou quem era, em 1996, ele se tornou uma celebridade. Em 2016, isso fica evidente quando Hal leva John para um restaurante de tacos. 


Ele é reconhecido imediatamente, recebe pedidos de autógrafos e é tratado como uma verdadeira celebridade. É nesse momento que a série também explica por que Hal deixou de usar seu uniforme da Tropa enquanto está na Terra. Questionado sobre isso, ele explica que o traje existe principalmente para causar impacto e transmitir autoridade, então prefere reservá-lo para "situações especiais". Logo depois, o treinamento de John ganha uma proporção completamente diferente.


Após Hal jogar o novato de um penhasco e esperar que ele use o anel para sobreviver, e antes que aquilo pudesse continuar como um exercício comum, surge uma emergência. Um holograma informa que houve um tiroteio em Rushville, Nebraska, deixando três vítimas. A xerife Kerry não quer os Lanternas interferindo na investigação, mas Hal acredita que existe algo diferente acontecendo, e que possa ter origem extraterrestre. Isso estabelece uma regra importante: os Lanternas não possuem liberdade para simplesmente interferir em qualquer ocorrência na Terra. Entretanto, quando existe a possibilidade de envolvimento alienígena, a situação passa a estar dentro da área de atuação da Tropa.

E já que eu mencionei holograma, essa sem dúvida é uma das ideias mais curiosas apresentadas pelo episódio, e que provavelmente ainda deve se tornar bem importante: tendo usado o anel de Jordan para lidar com a questão do penhasco, John se encontra com uma projeção holográfica de Hal. A explicação é que os Lanternas precisam realizar backups periódicos de suas memórias nos anéis, onde essas informações podem ser utilizadas posteriormente para criar uma espécie de representação holográfica capaz de transmitir mensagens. A projeção é tão convincente que, em determinados momentos, parece existir uma versão real de Hal diante de John.


Existe, entretanto, uma diferença importante: Hal não fazia um backup de suas memórias desde 2006. Isso significa que aquela versão holográfica corresponde ao Hal daquela época, dez anos antes dos acontecimentos que estamos acompanhando. John percebe rapidamente que o Hal de 2006 é diferente do homem que conhece atualmente. Ele é menos amargurado, menos irritado e parece carregar uma personalidade bem mais leve. Naturalmente, isso levanta uma pergunta: o que aconteceu com Hal durante esses dez anos para transformá-lo tanto?


Falando nele, o próprio revela a John que jamais deveria haver um Lanterna Verde na Terra. Ele também não acredita que a queda de Abin Sur, antigo portador de seu anel, tenha sido simplesmente um acidente. Há anos, Hal tenta descobrir o que realmente aconteceu com seu antecessor - e é justamente por isso que ele programou seu holograma para acompanhar a região de Rushville. Hal acredita que aquilo que derrubou Abin Sur pode voltar a aparecer — e talvez seja muito mais perigoso do que se imaginava. O problema, é que sua investigação pelo visto não possui autorização oficial dos Guardiões, e que pode revelar informações que os próprios prefeririam manter escondidas.


Ao chegarem à cidade, Hal & John vão até o campo de futebol americano onde aconteceu o tiroteio. Entre os vestígios, eles encontram um homem que deveria estar entre as vítimas, mas aparentemente saiu completamente ileso. John consegue capturá-lo e descobre que ele se chama Waylon - só que Kerry chega logo depois e deixa claro que o prisioneiro está sob a autoridade local. Hal não aceita muito bem essa decisão, porque continua convencido de que Waylon não é quem aparenta ser. Logo, ele decide fazer o que qualquer pessoa sensata faria: bolar um plano completamente absurdo para ser preso, onde provoca uma briga de propósito e consegue ser levado para a delegacia.


O problema é que Kerry percebe imediatamente a armação, e ao invés de colocá-lo em uma cela, ela decide puni-lo de uma maneira muito mais humilhante: prende Hal dentro de uma pequena área usada para guardar materiais de limpeza. E existe um detalhe: Hal não estava usando o anel quando foi preso. No dia seguinte, ele passa por uma audiência e consegue sair mediante pagamento de fiança. Entretanto, recebe uma condição: não pode deixar a cidade durante determinado período. Por ironia, essa restrição acaba sendo exatamente o que Hal precisava para continuar investigando Rushville.

É nesse momento que surge William Macon Jr., conhecido como Bill, oferecendo-se para representar Hal. O pai dele será responsável pelo pagamento, mas existe uma condição: Hal precisa comparecer a um churrasco na propriedade da família. Bill, vale dizer, é casado com a xerife Kerry, e os dois não parecem muito felizes juntos, embora tenham um filho chamado Noah. Hal obviamente fica desconfiado da situação, e não demora para descobrirmos a pessoa por trás disso: William Macon, uma das figuras mais influentes da cidade, e que também é um conspiracionista convicto que acredita que alienígenas estão planejando uma invasão à Terra.


Mais do que isso, Macon mantém uma verdadeira milícia armada em sua propriedade, que possui uma quantidade impressionante de tecnologia. Segundo William, tudo aquilo foi fornecido por um misterioso benfeitor cuja identidade ele não pretende revelar. De toda forma, ele quer que Hal interrogue Waylon, algo que curiosamente Hal também quer. Depois de alguma negociação, Kerry acaba permitindo que o Lanterna continue sua investigação.

No meio de toda essa confusão, o episódio ainda introduz Zoe, esposa de William. E aqui John se mete em uma situação bastante complicada: se envolve com Zoe sem saber inicialmente que ela é casada. Quando descobre quem ela realmente é, o problema já está criado - e aparentemente William já percebeu que o jovem teve um caso com sua esposa. Definitivamente, não é a melhor maneira  de começar uma investigação em uma cidade pequena.


E adivinha? Hal estava certo: Waylon não é humano, e sim um alienígena que chegou a Rushville movido por vingança. Existe algo escondido naquela cidade que está relacionado a um segredo dos Guardiões, e o grupo ao qual Waylon pertence pretende descobrir esse segredo sem que a Tropa interfira. A série também estabelece que existem pelo menos 14 espécies de seres metamorfos na galáxia. Esses indivíduos são capazes de reproduzir a aparência humana com precisão suficiente para enganar até exames médicos, incluindo raios-X. Hal finalmente identifica Waylon durante o interrogatório depois de fazer uma pergunta aparentemente banal: em qual escola Harry Potter estudou. A resposta errada entrega que existe algo muito errado com ele.

Só que a situação fica muito mais perigosa quando descobrimos a verdadeira natureza da ameaça. Esses alienígenas estão agindo como terroristas e possuem explosivos implantados nos próprios corpos. As bombas podem ser ativadas através do pensamento e, no caso de Waylon, a explosão teria força suficiente para destruir uma parte gigantesca de Nebraska. Com seu anel operando com pouca energia, Hal precisa encontrar uma maneira de impedir a detonação, algo que ele consegue. No processo, ainda aproveita para provocar Kerry e mostrar que sua desconfiança estava correta desde o começo.


Inclusive, enquanto Hal interroga Waylon, John permanece do lado de fora fazendo desenhos em seu caderno. A princípio, parece apenas uma característica aleatória do personagem, mas quem o conhece sabe que existe uma razão para isso. Antes de se tornar Lanterna Verde, Stewart foi fuzileiro e também possui formação como arquiteto. O desenho funciona, portanto, como uma pequena referência a outra parte importante da identidade do herói.


E então chegamos à grande revelação do episódio. Depois da explosão de Waylon, a história pula novamente no tempo e chega a 2026. John agora está mais velho e usa um cavanhaque, onde retorna a Rushville e reencontra Kerry, que claramente está abalada com alguma coisa. Os dois seguem até o mesmo estádio de futebol onde tudo começou em 2016, e encontram algo que muda completamente a percepção sobre tudo que vinha sendo estabelecido até então: um corpo congelado no local. É Hal Jordan.

Ou, pelo menos, parece ser. O corpo está sentado praticamente na mesma posição em que estava dez anos antes. Porém, agora ele aparenta estar muito mais velho e possui um ferimento de bala na testa. Obviamente, isso imediatamente levanta uma série de perguntas.


A primeira coisa que John faz é olhar para a mão direita de Hal, justamente onde ele costumava usar o anel. Não há anel, é isso é particularmente interessante porque John também não está usando um. Ou seja, aparentemente, ele não se tornou oficialmente um Lanterna Verde durante o intervalo entre 2016 e 2026. Mas a mais curiosa é sem dúvida a dúvida se aquele corpo é realmente Hal.


Veja bem, o episódio acabou de apresentar alienígenas capazes de copiar seres humanos perfeitamente. Também estabeleceu hologramas que podem reproduzir uma pessoa com enorme precisão. Não é preciso ser um conspiracionista  para perceber que a série desde já está praticamente nos convidando a desconfiar daquilo que estamos vendo. Pode ser realmente Hal, o anel pode ter sido roubado, ou existir alguma explicação completamente diferente. Por enquanto, não temos uma resposta clara, e isso pode ser justamente o objetivo.


No geral, o primeiro episódio de Lanternas consegue equilibrar várias objetivos ao mesmo tempo. Ele apresenta John Stewart, estabelece uma versão que, por mais diferente que soe a primeira vista, ainda é totalmente o que se espera do velho Hal Jordan, introduz regras básicas sobre a atuação da Tropa, começa a explorar os Guardiões e ainda cria um mistério envolvendo Rushville que claramente terá consequências maiores para a temporada. Mas, para mim, o maior acerto está sem dúvida na dupla principal.


Impulsionados pela química inegável entre Kyle Chandler e Aaron Pierre, Hal & John têm personalidades completamente diferentes, e isso cria uma dinâmica que funciona tanto para os momentos dramáticos quanto para o humor. Se Aaron desde já entregua um John disciplinado e resiliente, Chandler também parece muito à vontade como um Hal que série não tenta transformar em um herói perfeito. Ele é impulsivo, arrogante, irresponsável em alguns momentos e frequentemente age antes de pensar — mas que também é extremamente competente quando a situação realmente exige. 


Além disso, a série nunca esquece de referenciar sua própria mitologia usada como fonte, enquanto estabelece o início de um caso que promete ainda reservar muitas surpresas. E se esse é apenas o começo, a Tropa dos Lanternas Verdes finalmente parece ter encontrado seu espaço dentro do DCU. Estamos de volta no mapa, baby


Por: Riptor

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